quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Banquete à Luísa


Fotos: Deire Assis


Para fazer uma recepção memorável,
primeiro é preciso montar uma cuidadosa lista de convidados,
sem direito a negligenciar detalhe algum:
empatia de cada um com todos os demais,
distância em encontros que assegure uma saudade maturada
e economia na quantidade de convidados,
de modo que o convite sinalize
inconteste bem-querer.

Depois é preciso fazer que esse dia seja desejado.
Para isso, às vezes, basta suscitar uma troca de e-mails
entre todos e sempre com cópia para os demais,
com amplas possibilidades de que histórias novas
sejam mescladas a fatos antigos
e o gosto pelo texto bem escrito e espirituoso
marine a riso a hora do encontro.

No dia, prepare a casa com o maior esmero:
velas, talheres, guardanapos, música...
tudo deve expressar bom gosto e acolhida.
Mas a comida, claro, é o centro do evento.
De cara, exubere nos acepipes:
pães, patês e muitos, muitos canapés
em consistências, combinações, cores, disposições e sabores tais
que façam os convidados sempre hesitarem
sobre o bocado seguinte a ser degustado.

Durante toda a recepção, encontre a medida certa
entre organizar e desfrutar o evento.
É sua a decisão da hora de cada rito
mas, para ser inesquecível,
é mister saber fazer o outro livre
a ponto de tomar iniciativa e fazer coisinhas
que transformem o evento “de seu” em “de cada um”.

Mas tudo isso não vale nada,
se não se souber abrir o peito e a morada,
como quem abre o corpo à pessoa amada,
fazendo da uma refeição uma noite de amor.




Arremedos de Vinícius, "Para viver um grande amor".

sábado, 24 de outubro de 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sob o céu de Alexandre


Foto: Alexandre Lima
Por este ângulo recortou o céu, Alexandre, quando caminhava com o filho, Gabriel, numa tarde dessas, em Aparecida de Goiânia. Técnico de formação, desenhista-técnico de ofício, cantor lírico de vocação e viciado em romances históricos, Alexandre é um manifesto contra a estereotipia e um monumento à imprevisibilidade da pessoa humana.

domingo, 18 de outubro de 2009

Vão combate


"Prefiro o erro (se é erro) à negação de si mesmo que é o limite da demência. A vida me fez aquilo que sou, isto é, prisioneiro (se assim se quer) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno e me entrego"

Assim prepara o arremate de uma longa carta que teria sido escrita no transcurso de um ano e 17 dias, sobre a aventura de assumir a própria condição e encontrar assim, se não a felicidade, pelo menos o sossego.

Pelas mãos de Luiz e Rezende, encontrei "Alexis" nesta meio amarga manhã de domingo e o bebi de um fôlego, entre duas pausas para cochilar, antes que chegasse a hora do primeiro almoço do horário de verão. Texto poderoso, capaz de dizer intimidades sem resvalar para as descrições vulgares, como quem oferece a sensação de liberdade e dor do precipício, apenas nos pondo a um passo do abismo.

Alexis fala das angústias, das negações vãs e dos silêncios que envolvem a existência de quem se sabe diferente. Yourcenar, já na primeira obra de ficção e aos 24 anos, demonstra com soberba a capacidade de usar a palavra para eclodir a dúvida e minar as convicções sobre o estabelecido. Sem panfletarismo, mas sem concessões.

14. BRINQUEDO - Viagem à Esponja

Não sei brincávamos de roda frequentemente ou se foi uma única vez. Provavelmente foram muitas, porque a música me ficou no cérebro, inclusive com sua letra originalíssima: "Fui na esponja buscar meu chapéu/ azul e branco da cor daquele céu"

Muitos anos e quilômetros depois ouvi crianças de outras paragens relatando viagens à "Espanha" para buscar o mesmo chapéu - o que faz mais sentido do que a minha "esponja", mas não me altera a memória nem os afetos. O resto dos versos não varia. Nem o final: "Cada qual pega o seu par pra não ficar como a vovó"

Eliane, minha irmã mais velha, tinha métodos nada democráticos de organizar a correria: determinava em cochichos ao ouvido de cada um a quem se devia buscar no final da brincadeira, para formar o par e não ser alvo da galhofa geral: "A bênção vovó que ficou no caritó"

Caritó, em pernambuquês, é o lugar dos que não se casam, o que evoca outra vez a licença poética: fora das brincadeiras de roda vovó sempre é alguém que escapou do caritó e formou grande prole... Deixa pra lá! A brincadeira terminava pra mim, quando Eliane cochichava no ouvido de todo mundo e pra mim dizia em alto e bom som: "Você pode ficar com qualquer um"... Era a desgraça: meu turno de vovó-no-caritó... Eu que nunca fui lá um mestre em artes de saber perder, protestava aos prantos, até sair da brincadeira ou a brincadeira sair da roda...

O bom é que o repertória era generoso: cantorias, jogo de pedra, barra-bandeira, boi-de-barro, cawboys de plástico, esconde-esconde, banho de açúde, escalada em pedras, helicóptero de sabugo e penas de galinha, bola de meia, chimbra, pular corda, passar o dedo na chama do candeeiro, fazer conchas com as mãos sobre a luz da lamparida só pra ver o vermelho da luz atravessando as articulações dos dedos, pegar vagalume, rodar tição em brasa pra fazer desenhos de luz no breu da noite... e um sem fim de coisinhas de encher a infância de sabor e a vida de marcas.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

12. EU - Confissão de um quase ateu

Creio no amor que é tudo e não pode coisa alguma,
criador de céus e de infernos,
e em Jesus de Nazaré, Gregório de Matos, Zumbi dos Palmares, Olga Benário, Hélder Câmara, Tereza de Calcutá, Harvey Milk, Hannah Arendt, Dorival Caymmi...
um sem número de filhos e filhas desse mesmo amor,
nossos irmãos e irmãs em prazeres e agonias,
concebidos pelo poder do acaso,
forjados mulheres e homens pelas agruras e sabores da vida.

Essa gente nasceu de mulheres admiráveis e condenadas ao anonimato
e padeceu sob dominadores de todos os tipos.
Crucificados, mortos e sepultados
desceram à mansão dos mortos
mas ressuscitaram e vivem em nós.
E, então, não precisam mais subir nem descer à lugar algum
nem sentar à direita ou à esquerda de nenhum todo poderoso
donde jamais virão a julgar os vivos nem os mortos.

Creio no amor e na justiça
na mobilização social e no bem-querer
na comunhão das pessoas que querem construir o bem
no perdão de erros e deslizes
na ressurreição
na vida efêmera
Amém!