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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Dia de 'se-lembrar'

Hoje Everaldo completaria 48 anos, empatando por um mês com Eliane que, pelas tradição de Bukingham, herdará a coroa lá de casa. Como ele foi habitar o eterno aos 32, fico olhando para as pessoas de 48, tentando pintar o irmão grisalho que não tive. O lugar mais certo de encontrá-lo, entretanto, é o meu próprio espelho e essa, de longe, é a melhor parte do rito diário de retocar a barba. Curioso como eu que gastei a infância e adolescência inventariando o quanto éramos diferentes, hoje não acho ninguém a quem eu me pareça mais. Tem dia que a semelhança é tanta que dou um risinho para o espelho, como uma saudação silenciosa e certa de que ele está por ali, como aqui, na parede à frente da mesa onde trabalho, entre as fotos da gente lá de casa que veio me dar solo nestas paragens ao Norte.
Meus sobrinhos são outro lugar de encontrar Everaldo, seja nos traços da Natália, na boa-gentice de Bruno e até na gaiatice do Arthur - sendo esses dois últimos os traços que me atiram no colo do pecado capital da inveja. Tenho certezas inabaláveis de que tudo ia ser um mar-de-rosas se me fosse dado trocar minha toupeirice pelo descolamento desses moços. Mas essa também pode ser mais uma das nossas semelhanças: achar que o "outro" tem os dons e os bem-quereres que nós próprios não gozamos, como tivemos, por sorte, oportunidade de rir do quanto um achava que o outro era o preferido de casa...
Meus motivos eram claros e razoáveis: nasci logo depois de uma dupla que inaugurou a vida de avós e tios dos dois lados da família, enquanto eu ocupava um lugar incerto de terceiro ou quarto lá de casa e já me embolava com a Flávia e a Carla na renca de netos e netas de seu Natal. Além do mais, Eliane e Everaldo eram crianças tão lindinhas, magrelas e docinhas, que me dá raiva até hoje. Eu, tipo parrudo, no corpo e na falta de humor, já não era pra brincadeiras e ainda fui turbinado com um curso avançado em palavrões oferecido por tio Nêgo... Nessa altura mamãe teve de jejuar um semestre sem poder ir à feita do sábado - evento marcante da vida social sambentense até hoje - por falta de quem voluntariamente corresse o risco de tomar conta de mim...
Sonhei muito rir dessas histórias com o Everaldo, quando a barba grisalha murchasse os dramas patrocinados pelos hormônios da puberdade. A vida, porém, tinha outro script e, então, eu tomo a contação de histórias como uma forma de desfrutar esse prazer.

sexta-feira, 29 de março de 2013

"E nesse dia branco..."






A memória é um dos meus muitos cavalos sem freios. Se me fosse dado impor-lhe rédeas, a vista da cidade na manhã de hoje, seguramente, não seria esquecida. Pela terceira vez, mais ou menos, deu-se aquela combinação de frio e humidade que cria bolinhas de neve pequenas e em quantidade suficiente para pintar de branco cada galho magro das árvores e arbustos nus pelo inverno rigoroso de tantos meses. Uma paisagem bonita de ver, ainda mais num dia com poucos carros e muito silêncio.
Bem diferente da colorida, quente e não menos bonita paisagem dos meus tempos de Jesus, nas ruas de São Bento e nas estradas do Brejo Velho e de Olhos d'Água. Isso mesmo: fui um quase ator de quase sucesso de peças sazonais, com talento suficiente pra ser o José do Natal e o protagonista da sexta da paixão. Há umas fotos por aí para contestar certa incredulidade tanto relativa à minha carreira teatral, quanto ao hoje inimaginável fato de eu não ter precisado de peruca para o Nazareno, porque era eu mesmo um cabeludo. Como elas não estão comigo, dependo inteiramente da sua fé e da sua imaginação.

domingo, 17 de março de 2013

"São dois pra lá, dois pra cá"

Lembra que avisei no último recado que estava chegando ao meio do caminho e que o inverno estava fraquejando? Pois disse uma verdade e uma mentira. O inverno em Winnipeg ignora solenemente a calendário e, a dois dias da primavera oficial, a neve pinta de branco até as pistas de rolagem, como você pode ver...

Sobre o meio do caminho, isso é verdade. No meu ano convencionado, hoje seria o 1º de julho, quando os 365 dias se partem bem ao meio e, amanhã, terei 183 dias "vencidos" e 182 de "saldo". Essas datas sempre pedem um balanço, mas eu morro de medo de fazer contas de qualquer tipo. De qualquer modo, digo que me sinto feliz com a oportunidade de viver essa experiência e que sinto um tantinho de orgulho (de mim para comigo mesmo) de me saber capaz de enfrentar um dos poucos climas do planeja que, ao longo do ano, faz um passeio de 70 a 80 pontos na escala Ceusius, caindo perto dos 50º abaixo de zero e, depois, subindo aos 30º.
Há coisas, porém, que nem uma desistalação do tamanho da que eu vivo dá jeito. Continuo tendendo a peru, morrendo na véspera de tudo que eu mesmo invento só pra manter a ansiedade em alta; sou um matuto em qualquer latitude e idioma; e, definitivamente, morro de inveja de quem bebeu água de chocalho e é capaz de enfia um assunto no outro, não importa com quem converse, onde ou como o faça. Meu sonho era ser assim. E ainda queria falar rápido pra fazer caber mais palavras dentro dos segundos!
Fora essas coisas, já bem conhecidas de todo mundo, tenho evitado pensar em feijão-de-corda, pamonhas e "jantinhas" dos botecos do setor universitário mas, no tempo certo e no tempo errado, posso ver as espirradeiras, as quaresmeiras e as sibipirunas das ruas da gente. Isso não tem jeito de segurar. Aí eu suspiro fundo... e vou em frente.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Um tempo tátil

Graças a um presente do Reginaldo Rosa, ao longo de 2012 revivi uma experiência mágica da minha infância que é retirar a página do dia da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, que os franciscanos reproduzem religiosamente deste não sei quando. Naquela época me sentia uma espécie de "senhor do tempo", prestando o serviço doméstico de estampar o nome, a cor, o número, a lua, o santo e um cento de outras informações que essa espécie de almanaque espreme em um minúsculo retângulo de papel ordinário, caprichosamente organizado. Nestes últimos meses, especialmente, desvelar a página nova assim que desmontava da cama me dava a sensação de tocar o tempo, imaterial por natureza.

Um detalhe da folhinha que me chama a atenção de modo particular é o balanço dos dias gastos e dos dias restante do ano em curso. Hoje, por exemplo, "-366/ + 0", ou seja, 2012 está nas últimas. Para minha desolação, amanhã não terei um pacote novinho na minha mesa, para curtir o "-1/ + 364". Não terei esse, mas já tenho outro rito, da mesma inspiração: com a mesma sistemática de "- dias vividos/ + dias a viver", tenho registrado no meu caderninho de notas uma sequência do meu ano particular de estágio aqui no Canadá.

Hoje, por exemplo, chego ao 107º dia nessas paragens, como quem chega a uma sexta-feira de semana extenuante. Nada a ver com o dia da semana e menos ainda com meu ritmo corrente de trabalho, dado que estou numa semana de vagabundagem. O "peso" de hoje deriva da saudade da magia que as passagens de ano da minha infância e adolescência costumavam ter. Nos tempos de vacas-gordas, no "dia-de-ano" envergava minha segunda melhor roupa nova, que perdia apenas para a roupa do "dia-de-reis" e era muito mais bonita do que a roupa "de-santa-cecília" e "do-natal". Essas quatro únicas roupas novas de cada ano seriam pouco usadas ao longo do ano novo, porque eram reservadas para acontecimentos especiais, como casamentos, batizados, enterros e outras "festas"...

Por mim, punha a roupa mais bonita já no ano novo, porque nada era mais emocionante do que o apagar das luzes de toda a cidade bem à meia-noite, iluminada por fogos, vivas, seguidos de cumprimentos entusiásticos dirigidos até a desconhecidos. A missa do galo e a procissão de "São-Bom-Jesus" não chegavam nem aos pés em rito, magia e inspiração. Já tive reveillon em Boa Viagem e em Copacabana, mas nada se compara àqueles de antigamente. Certeza que a passagem de logo mais será particularmente "chocha". E sempre me pelo de medo de que a "virada" seja um presságio do ano todo... Misericórdia!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Lá em casa era assim...


Quando criança, morria de inveja das casas que tinham enfeites de Natal. A árvore sobre a mesa de jantar nunca usada de vó Dorica, por exemplo, devia ter uns 30 centrímetros de altura, já era de um verde desbotado desde que eu me lembro, mas isso não tinha a menor importância. Era um deleite ficar olhando aqueles penduricalhos, todos desemparelhados, de formatos os mais variados. Lembro especialmente de uma "bola" (como chamávamos a todas, independente do formato) com cara de Papai Noel (sem corpo) e outra que era uma espécie de melão-de-são-caetano (comprido e retorcido). A campeã de originalidade, porém, era uma bola-guarda-chuva, cor-de-rosa se não me engano.

Lá em casa, porém, a história era outra: nada de bolas, árvores, nem nada. Acho que não é apenas porque fôssemos pobres e, hoje mais que antes, sei o quanto o éramos, com nossa "fazenda" de vacas com nomes próprios, "Mochinha", "Fofinha" e "Morena" - entre as mais famosas. Penso que esse jeito áspero de mamãe nos educar com economia de fantasia deve-se, em grande medida, à dor sem cura da perda da mãe dela, morta quando mamãe, a mais velha de uma prole de oito, tinha apenas 12 anos. Parece que fazer festa, em alguns momentos, significaria afrontar a memória daquela mulher, cujo luto sem fim parecia ser a forma possível de se reverenciar. Parece também que era a forma de mamãe preparar a gente para a hipótese, felizmente não confirmada, de crescermos sem os cuidados dela.

Eu não entendia direito essas coisas, mas sabia que, no Natal ou fora dele, a história da minha avó era assunto proibido, porque fazia sangrar. Por outro lado não estava disposto a viver sem fantasia, então, pegava carona no presépio da Matriz, sempre montado numa espécie de quarto, à direita do altar (e que já não existe mais), além, claro, da "disney" que era a sala de vó Dorica.

Lá pelos dez anos, mais ou menos, gastei minha mesada na compra de um festão prateado, que seria pendurado em forma de arcos, no portal entre as salas da nossa casa de Açúde Novo. Peguei um galho seco, cobri de algodão, fiz uns bolinhos de papel, coloridos com canetinhas e tivemos nossa primeira, e acho que única, árvore de natal. Odiei. Era um horror de feia, mas deixei lá num canto assim mesmo. Vez por outra ainda me volta à memória a perspectiva de quem deitava no safá e assistia o vento girar o festão, como o fuso brilhante de uma casa-de-farinha voadora, pra lá e pra cá.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Uma queda especial pela dança

Fora a notícia do meu nascimento, que arrastou pra casa metade dos convidados da festa de casamento de Zefa-de-Lianor e João-du-Nizo (quem sabe "João Dionísio" de batismo...), não costumo atrapalhar quem se diverte numa dança, porque considero isso um pecado capital. De todas as artes, a dança talvez seja a que mais me tira o fôlego, seja dançando ou apenas deslumbrado de ver quem dança. Por isso mesmo, quando entro em um teatro para ver um espetáculo, é comum fazer uma força extra para que o cérebro registre tudo e, logo, me dá uma tristezinha de saber que vou esquecer parte das cenas.
Felizmente, ainda moram em mim as lembranças do Balé Popular do Recife, numa apresentação feita em São Bento do Una, quando eu ainda era adolescente; a Gisele do Balé Nacional de Cuba, visto na minha juventude, nos tempos vividos em Havana; a coreografia dos ciclos de vida do cerrado, feita pelo Balé do Estado de Goiás, no começo dos anos 1990, quando estava chegando por lá; espetáculos da Quasar Cia. de Dança ainda com Duda Sharma e Luciana Caetano; Maracatu Nação Pernambuco e muitos outros deslumbramentos sem tamanho... Espero, muito sinceramente, que daqui a alguns anos recorde as imagens que o Royal Winnipeg Ballet, RWB, pintou na minha alma, ontem à noite, entre as quais as cenas desta postagem.
 

Era a estreia do clássico "Quebra-nozes" na cidade e eu consegui ir ao espetáculo com pouco mais de uma dúzia de estudantes da escola de inglês que, como eu, além de dança apreciam um bom desconto. A mais antiga e uma das mais prestigiadas companhias de dança do Canadá, o RWB tem um corpo de bailarinos diverso com a cidade, com gente do Japão, China, Ucrânia, Maldávia, México e Brasil, com dois bailarinos: Luzemberg Santana (Paraíba) e Thiago dos Santos (São Paulo), o primeiro recém-chagado e o outro já nesta companhia desde 2008.
Veja um pouquinho dos bastidores desta montagem, em registros do RWB de três anos atrás.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O que mesmo o indicador indica?

Do meu longínquo ensino fundamental, que nem assim se chamava, guardo um gosto estranho pelos números, que era a minha preferência, antes de eu me encantar pelas entrelinhas das letras... Um particular que me fascina são os indicadores, que têm o condão de pegar um novelo de complexidades e reduzir a um número, enfiado numa linha e capaz de dizer quem é bom, mais ou menos ou um traste.

Hoje, por exemplo, fiquei curiosão pra saber quem são as universidades que aparecem no topo do IGC (os indicadores têm mais essa tara de se chamarem pelas siglas), no caso, Índice Geral de Cursos, através do qual o MEC faz um apanhado sobre a educação superior no Brasil. Não sou capaz de dizer as variáveis e os pesos que entram no cálculo, mas sei dizer do meu reiterado aborrecimento com a informação de que os melhores se concentram no Sudeste.

A vontade primeira é de esculhambar com o indicador. Depois a curiosidade me vence e termino indo atrás das tabelas completas que os jornais nunca disponibilizam, mas os sites oficiais geralmente sim. Na de hoje é possível ver que a UFG tem um "IGC contínuo" de 3,56 que a coloca no 29º lugar por este critério e a 0,39 dígitos de atingir a nota máxima do indicador e virar notícia nacional. Fui olhar, então, quem ajuda e quem puxa para baixo essa nota. Até onde pude entender o problema está na pós-graduação. Se fosse apenas pela nota dos doutorados, a UFG cairia para a posição 65 e pelas notas dos mestrados para o 68º posto.

Claro que não sei se entendi direito a tabela, nem como se chega a estes números, muito menos como se faz para eles crescerem. Tô doido pra saber o que as pro-reitorias dizem a respeito. Quando sair uma interpretação decente, por favor me avise.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Pirangagem e matutice

"Pirangueiro" é um adjetivo frequentemente usado no Agreste Meridional de Pernambuco para descrever um cidadão parcimonioso quando se trata de despender qualquer soma em dinheiro. Mais espraiado no universo linguístico brasileiro, "matuto", por sua vez, é o qualitativo atribuido à pessoa, geralmente de origem rural, em situação de desconforto social. Ambos de caráter discriminatório, usados em ataques proferidos por consumistas urbanóides. A mistura dos dois, de algum modo, se aplica a mim, por questões de origem, condição e circunstância.

Desde que fiquei uma semana sem dinheiro, logo que cheguei por estas paragens, naquele episódio já relatado da senha bloqueada, estou super, mega, hiper financeiramente precavido. Antes de comprar qualquer coisas, multiplico por dois (pra simplificar a relação real x dólar canadense) e, frequentemente, concluo que é caro e deixo pra depois. Mesmo os itens essenciais passam por minunciosa avaliação. Por isso, até hoje não havia aberto o vinho que comprei pra celebrar o desbloqueio do cartão, porque os abridores de garrafa por aqui estão pela hora da morte...

Hoje, finalmente, aproveitando o gás de ter concluído um argumentative research paper, de 20 páginas em bom inglês acadêmico (até que a professora me devolva na segunda, com um caminhão de críticas) e liberei geral: comprei um sacarrolha com designer futurista, que custou a fortuna de $ 10 dólares. Agora há pouco, junto com um macarrão que é a minha receita número dois de um cardáplio de três pratos, comecei a luta para usar meu novo equipamente. Tentei, tentei e nada. "Que bosta, será que isso não presta?" Depois de arranhar o metal que lacra o gargalo e a boca da garrafa, numa operação de uns bons 10 minutos, me dei conta que a porcaria era apenas rosqueada, sem rolha portanto, e que poderia ter sido tomada umas cinquenta vezes nesses quase dois meses de espera inútil.

Pra completar, claro que o vinho é uma espécie de chapinha canadense e, a partir de amanhã, vou arriscar a minha receita número quatro, que é um arroz roxo, pra lá de esquisito, o único que achei na internet que leva vinho tinto seco e que, não sem razão, por enquanto não tem nenhum comentário ou avaliação... Agora se a professora aprovar meu artigo, "juro-na-cruz-de-Deus", como dizíamos lá em Açúde Novo, que volto naquela adega linda e compro um vinho decente, com rolha e tudo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"Honrarás tua mãe..."

Em alguns dias completará um mês que tia Senhora, nossa tia-avô paterna quase centenária, está de casa nova. Dessa vez, coube a Eliane, primogênita da nossa casa, e sua família, edificar a casa de tia no que antes era uma área nos fundos do terreno onde moram. Com este movimento, a quarta geração da nossa família experimenta o prazer e o desafio de conviver com uma mulher cheia de humor, vitalidade, memória e muita teimosia também. A primeira geração foi a do meu avô Jorge, irmão de tia, que a acolheu pouco depois que eu nasci, num tempo de muita penúria em nossa região. Lá pelo meio do caminho, a segunda geração, a do meu pai, minha mãe e minhas tias, em diferentes circunstâncias, fizeram a mesma experiência. Agora é a vez da Eliane e com ela, não apenas a terceira, mas também a quarta geração (meus sobrinhos e sobrinha) tocarem a vida na companhia de tia Senhora.
Em toda essa trajetória, tia tem sido autônoma e trabalhadora ao extremo, ao mesmo tempo em que é uma controvérsia em pessoa: ranzinsíma com uns, humoradíssima com outros, sem nenhuma habilidade ou vontade de disfarçar antipatia ou bem-querer. Como, felizmente, estou na bando dos bem-quistos, um dos meus momentos preferidos toda vez que volto a São Bento do Una, minha cidade natal, é passar horas com tia Senhora, ouvindo as mesmas velhas histórias, contadas com precisão científica, sobre a epidemia que matou a mãe e dois irmãos dela em 1925, as viagens a pé de Pernambuco para Juazeiro do Padre Cícero no Ceará nos anos 1930, os serviços que ela prestava para uma senhora japonesa em São Paulo, nos anos 1950 e os anos que trabalhou vendendo água em lombo de burro, em Garanhuns, na década seguinte.
Também gosto das ciências de tia Senhora, abstraidas da empiria cotidiana, como a teoria de que as hortências ganham as cores do vestido da mulher que as plantou ou a perigosa hipótese de que muito sangue provoca dor nas pernas. Essa última foi concluída depois que ela furou o pé mexendo nos milhões de trecos que são guardados porque "um dia a gente pode precisar" e, depois disso, a dor daquela perna passou. Logo, o que causava a dor era o sangue perdido no acidente: "Dá vontade de furar a outra perna", diz ela. Há também a teoria de que a asa-branca que viveu mais de 15 anos veio a óbito porque ela (tia Senhora) colocou veneno para matar as muriçocas, as muriçocas cairam na gaiola, a ave comeu as muriçocas e morreu envenenada tambem. Já a longevidade do galo-de-campina que já poderia ir para o exército, porque tem impressionantes 18 anos, será assunto para um professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde um dos meus sobrinhos estuda Veterinária, porque fora o método de tia Senhora, ao que parece não há registro na literatura de passarinho com tantas eras.
Toda a minha gratidão a Eliane, meu cunhado e meus sobrinhos que agora abriram a casa para fazer por tia Senhora o que seria igual responsabilidade de uma dezenas de nós outros descendentes, e o meu desejo de que essa convivência seja tão rica e prazerosa como foram os anos em que vivemos juntos, antes de eu me mudar para Goiás, ou as minhas tardes de férias em São Bento transitando nos universos fabulosos dessa mulher absolutamente singular.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Aparando a juba

Depois de muito vexame matinal, por causa de minhas melenas esgadanhadas, graças a uma combinação perigosa de carequice, mais cabelo grande e amassado por uma noite de sono, fui hoje ao salão de beleza. Era uma cabeleireira oriental, mas podia ser até marciana que eu encarava: entrei mesmo foi pelos 10 dólares estampados na porta, que eu ainda acho caro, mas pelo menos está longe dos 25 que eu vi na porta de outro estabelecimento do ramo, que me fez evitar até de passar na rua. Sem falar dos outros que nem estampam preços e isso já é um aviso de que são proibidos para bolsistas carecas.

As instalações no salão de hoje, convenhamos, não são lá muito higiênicas, a começar pelos tufos de cabelo sobre a mesa onde tive de depositar meus óculos. Minha esperança é que piolho não se crie no gelo... "Como você quer que corte?" - Perguntou a moça. "Não tenho muitas opções", sapequei de cá, com meu inglês manco, mas já querendo ser metido a espirituoso.

Chegamos rápido a um consenso de que deveria ser baixo e pronto. No meio do caminho, a checagem de praxe "se está bom" e um novo acordo de que podia cortar ainda mais. "Outros 10 dólares só daqui a dois meses" - pensei... No fim, fiquei com um indeciso topete, parecendo o galo-de-campina de tia Senhora, mas ainda assim acho que amanhã chegarei menos esquisito para a primeira aula.

A possibilidade resolver a paradinha do cabelo com um banho antes de ir pra escola está totalmente descartada. Entre outras coisas, temo o congelamento tácido da penugem que me resta e virar uma espécie de Neimar, com uma crista-picolé formada no percurso de casa para a escola... Melhor não arriscar. Banho, só no final da tarde, com tempo de sobra para ter certeza de que tudo está realmente seco, antes de pôr o pé na rua. Além do mais, como dizia "ti-Mané-Domingo", outro lendário tio-avô da minha coleção, "nunca ouvi falar que ningém morreu de grude; mas de banho, eu já ouvi muito...".

sábado, 29 de setembro de 2012

Tudo bem, mãe: vamos deixar assim!

Com o meu aniversário, comemorado hoje, fechamos todo o ciclo de nascimentos da nossa casa, iniciado com a festa de Everaldo, nascido em 31 de julho, seguido por Cristiany, de 11 de agosto, depois Vanuzia, 19 de agosto e Eliane, 1º de setembro... Além de admirar a fertilidade dos verões na nossa casa, costumamos encenar o game da reclamação das escolhas de mamãe. Não do meu “w”, do “y” da Cris ou do “i” de Nuzia, culpa exclusiva do pessoal do cartório de São Bento do Una; mas dos nomes mesmos, como tais. No meu caso, sempre protesto contra a falta de catolicidade de mamãe, que resolveu homenagear o padrinho dela ao invés de simplesmente olhar na folhinha do Sagrado Coração e me batizar como “Miguel”, “Gabriel” ou “Rafael” – os santos de hoje. “Miguel Brito”, já pensou? Eu ia arrasar...

Pela mesma folhinha, Cristiany poderia ter sido “Lélia” ou “Clara” (ou seja, se daria bem de qualquer forma). Em compensação, Vanuzia poderia ser “Sista”, Eliane “Terenciana” e Everaldo “Demócrito”... Até eu poderia perder um dos três nomes bacanas, para não gerar ciumeira nos outros dois anjos, e acabar virando “Arcanjo”.
 
Por este lado, melhor deixar as coisas como estão e tratar de celebrar a vida, como comecei desde ontem, conhecendo com o pessoal do curso de inglês a simpática Gimli, uma das cidades localizadas às margens do Lago Winnipeg, distante mais ou menos 80 km da cidade de mesmo nome. Veja aí alguns registros da presença Viking no nosso continente, os quais, segundo o pessoal que nos recebeu, seriam os reais “descobridores” da América, no ano mil, portando cinco décadas antes de Colombo.





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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pau na máquina

Foi na emissão da CNH que a demônia da máquina digital inaugurou a minha era das fotos-de-documentos-pessoais-com-cara-de-monstro. Depois o título com identificação biométrica e agora o passaporte. Aí a minha depressão converteu-se em revolta luddista, motivando esse manifesto: você que também perdeu o direito de esperar o dia certo para ir a um Fujioka da vida, quando milagrosamente não amanhecia com a cara inchada e os cabelos amassados, junte-se a mim nessa rebelião contra as famigeradas máquinas digitais, operadas sob cadaverizantes luzes fluorescentes, por atendentes enfadadas de um Vapt-Vupt, numa espécie de paredão de fuzilamento...
A gota d'água pra mim foi comparar a atual com as fotos de passaportes anteriores: de-pri-men-te! De príncipe, passei a ogro sem nenhum tipo de estágio ou pulgatório e, juro, tudo por conta dessas malditas máquinas digitais, cuja falta (ou excesso) de sensibilidade, nos impõe uma insuportável consciência da realidade. Bom mesmo era aquele tempo em que o Geovane e o Ivanildo retocavam à mão nossos retratos em preto-e-branco, nos estúdios de São Bento do Una; ou aquele desenhista que, num dia de feira, praticamente fez uma cirurgia plástica em tia Zália, por encomenda da própria cliente. Por acaso "a verdade vos libertará" é uma máxima aplicável ao campo da estética? Ora me poupe...

domingo, 2 de outubro de 2011

Vida Maria

Talvez por ser uma animação, com possibilidades de imaginação próxima da literatura, este curta me devolve a mil histórias, lugares e Marias do meu percurso. Vejo-o sempre com respiração curta, frio no estômago e lágrimas nos olhos.


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domingo, 22 de agosto de 2010

A freira e o namorado

Quase duas décadas depois dos primeiros contatos, quando era professor na então Faculdade de Ciências e Letras de Iporá (hoje UEG), as cartas de sóror Mariana Alcoforado entraram aqui em casa, com a sedução de sempre. Trata-se de cinco cartas, escritas em meados do século XVII, supostamente de uma freira portuguesa para um militar francês que fora seu amante quando em campanha e que a teria abandonado. Nos três séculos que separam a primeira publicação e os dias de hoje tudo tem sido posto em dúvida, especialmente a existência da freira e do cavaleiro e a autenticidade das cartas, com apaixonados ataques e defesas. Sobre o que não pode haver dúvida é sobre a qualidade literária do texto, tido por muitos como o mais significativo das letras lusitanas desde Camões. Quer ler um trechinho para sentir o sabor?

"[...] Consumiste-me com as tuas assíduas perseveranças; ...inflamaste-me com os teus transportes, encantaste-me com as tuas finezas; ...asseguraste-me com os teus juramentos; ...a minha inclinação violenta seduziu-me, e as consequências destes começos, tão agradáveis, e tão venturosos, não são mais do que lágrimas, gemidos, e uma funesta morte, sem que possa achar-lhe algum remédio!"

Imagem captada de: http://www.museuregionaldebeja.net/sorormarianaalcoforado.htm

domingo, 8 de agosto de 2010

Mané de Jorge

Em janeiro meu pai completou 70 anos e eu não pude participar da festa. Hoje é dia dos pais e eu estou a 2 mil quilômetro... Não custa correr o risco de enviar, outra vez, a mesma "carta" ridícula...

"Todas as cartas de amor são

ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

como as outras,

ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

têm de ser

ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia

sem dar por isso

cartas de amor

ridículas.

Afinal,

só as criaturas que nunca escreveram

cartas de amor,

é que são

ridículas."

(Trecho do poema "Todas as cartas de amor são",

de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Paixão de vó Dorica



O ponto alto da Semana Santa da minha infância era a sexta-feira da paixão. A abstinência de carnes nas seis sextas da quaresma preambulavam a sexta-feira maior, quando os homens nem bebiam água na metade do dia e todo mundo tinha de jejuar. Criança não era obrigada, mas o fazia como quem pede licença para entrar na vida adulta. Jejum, na verdade, é modo de falar, porque o dia era de banquete, e dos fartos! O negócio consistia em acordar cedo, não tomar café da manhã e esperar que chegasse meio-dia em ponto para poder sentar à mesa que, mesmo de 12 lugares, sem contar os tamboretes improvisados, ainda era insuficiente para acomodar os herdeiros. Eu era um dos que sempre sobrava para a mesa da outra sala: suprema humilhação... A compensação vinha em forma de bacalhau e peixes preparados de trocentos jeitos e mais uma toneladas de pratos que só davam o ar da graça naquele dia, sem contar que na sobremesa tinha bolo de mandioca já fatiado e uma “poncheira” de umbuzada daquelas bem doces e grossas. A essa altura o jejum já tinha ido pro beleléu, mas sem culpa nenhuma porque a quantidade de calorias ainda não figurava no cânone dos 8 pecados capitais. Até hoje não entendi porque só nessa época o livro de vô Jorge, com figuras de dilúvios e de santas martirizadas, saia do guarda-roupa e vinha à público... E alguém sabe explicar por que, com tanto feijão e côco o ano inteiro, só nessa época feijão de côco frequentava a mesa dos “Cândios”? E que idéia é essa de servir “imbuzada” de sobremesa?


Depois disso, vinha o sábado de aleluia com o “Judas” nas portas dos vizinhos de Linduarte e tia Zália, na Una, e os banhos matinais (por que todas as águas do sábado de aleluia são abençoadas) e, para completar, o domingo de páscoa, que é o maior para a maioria, e pra gente não tinha a menor graça.

terça-feira, 23 de março de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

18. CANTO - Secretamente compartilhado

Embaixo da cama: canto eleito para guardá-la por ser o mais privado possível, ali pelos oito ou nove anos. Ela veio de São Paulo, cheia de roupas usadas, mandadas pelos parentes de lá, no retorno de uma viagem de mamãe que, até hoje, não consigo dizer porque teria sido feita exatamente naquela época. Nem antes nem depois. Após o rateio dos regalos de segunda, festejados como se de primeiríssima fossem, a mala verde foi o que me coube, por recíproca eleição, começando ali uma longa relação de mistérios e cumplicidades.

Desde então, arrastei essa mala para debaixo da minha cama por três ou quatro casas para as quais nos mudamos, através da minha infância-puberdade-adolescência e juventude... Nela cabia, em segredo e síntese, tudo que habitava em mim: coleção de tampas de margarida de super heróis; álbuns de figurinhas invariavelmente inconclusos; pacotes de gibis comprados, nos sábados que eu podia ir do sítio à feira, na banca do seu Genésio e da dona Marli, com predomínio da turma do Bolinha e da Luluzinha, com suas mães de peitos fartos e bundas murchas, vendas de limonada em caixote, com rã atirada dentro da jarra e brigas com a turma da zona norte... Também tinha coleção de meia dúzia de chaveiros e um inútil “compacto” de história infantil numa casa sem vitrola.

Entre outras relíquias, que eu julgava invioladas, embora a mala não tivesse chave, uma “milhaeira” de cerâmica em forma e cor de moranga, onde eu guardava minhas moedas e que, soube muito mais tarde, era o mesmo lugar de onde Vanuzia e Amanda, minha irmã e prima quase gêmeas, com uma faca de mesa e muita habilidade, tiravam toda tarde, no meu horário de aula, o soldo para financiar esbórnias de picolés e pipocas com textura de isopor, disponíveis na banca do seu Babá.

Esta, porém, já é outra história, ainda sem suficiente acerto de contas...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

15. MOTIM - Peixeira poética


Dia desses Gilmara, que tem a idade da minha irmã mais nova e ainda mora na casa em que foi nossa vizinha, perguntou se eu tinha aquele poema que pintei na parede da nossa casa em São Bento do Una, quando o ano 2000 ainda parecia uma miragem... O poema a que se refere foi encontrado não me lembro onde mas, provavelmente, nos velhos livros com que preparava aulas como professor substituto de alguma escola da cidade. Era do "Boca do Inferno" e, embora escrito para "homenagear" a capital soteropolitana do século XVI, me parecia perfeito para alfinetar minha província de quatro século depois.
Mais adolescentes que eu, Vanuzia e Cristiany, minhas irmãs número 2 e 3, recortaram letras comigo e também prepararam os restos de tinta Acrilex que, sendo para tecido e as únicas disponíveis, foram usadas assim mesmo para colorir a parede mais pública da nossa casa, a jatos de uma daquelas bombas de matar "muriçocas". Por uns dias fui chamado de "Gregório" na cidade e, pelo visto, tá chegando a hora da vizinha com memória de elefante virar "Gilmara de Matos Guerra"...

domingo, 27 de setembro de 2009

Boneca que come gente





A minha é a número 3 (Reny de Oliveira), a que encontrei na década de 1980, recém-chegado de Açúde Novo, sítio onde vivi até os 11 anos e que só dispunha de tv a bateria, na condição de, depois, empurrar o Jeep em volta da casa, até ressusictar a carga comida pela novela.

Quando leio ou falo do Sítio do Pica-pau Amarelo, é aquela Emília gasguita que me saltita em passos miúdos e duros cérebro adentro. Morro de curiosidade de ver as primeiras Emílias em ação e assumo o meu despeito com as novas e modernosas Emílias...

No fundo, acho que Emília não come apenas as atrizes, cujos gestos emiliáticos continuam sendo adivinhados em todos os demais personagens (se por ventura os fazem)... Aos expectadores a famigerada boneca também submete e domina. A morte da Dirce Migliaccio que nem foi Emília pra mim, já aconteceu a quase uma semana e a boneca não me sai da cabeça?!!