terça-feira, 3 de novembro de 2009

15. MOTIM - Peixeira poética


Dia desses Gilmara, que tem a idade da minha irmã mais nova e ainda mora na casa em que foi nossa vizinha, perguntou se eu tinha aquele poema que pintei na parede da nossa casa em São Bento do Una, quando o ano 2000 ainda parecia uma miragem... O poema a que se refere foi encontrado não me lembro onde mas, provavelmente, nos velhos livros com que preparava aulas como professor substituto de alguma escola da cidade. Era do "Boca do Inferno" e, embora escrito para "homenagear" a capital soteropolitana do século XVI, me parecia perfeito para alfinetar minha província de quatro século depois.
Mais adolescentes que eu, Vanuzia e Cristiany, minhas irmãs número 2 e 3, recortaram letras comigo e também prepararam os restos de tinta Acrilex que, sendo para tecido e as únicas disponíveis, foram usadas assim mesmo para colorir a parede mais pública da nossa casa, a jatos de uma daquelas bombas de matar "muriçocas". Por uns dias fui chamado de "Gregório" na cidade e, pelo visto, tá chegando a hora da vizinha com memória de elefante virar "Gilmara de Matos Guerra"...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Banquete à Luísa


Fotos: Deire Assis


Para fazer uma recepção memorável,
primeiro é preciso montar uma cuidadosa lista de convidados,
sem direito a negligenciar detalhe algum:
empatia de cada um com todos os demais,
distância em encontros que assegure uma saudade maturada
e economia na quantidade de convidados,
de modo que o convite sinalize
inconteste bem-querer.

Depois é preciso fazer que esse dia seja desejado.
Para isso, às vezes, basta suscitar uma troca de e-mails
entre todos e sempre com cópia para os demais,
com amplas possibilidades de que histórias novas
sejam mescladas a fatos antigos
e o gosto pelo texto bem escrito e espirituoso
marine a riso a hora do encontro.

No dia, prepare a casa com o maior esmero:
velas, talheres, guardanapos, música...
tudo deve expressar bom gosto e acolhida.
Mas a comida, claro, é o centro do evento.
De cara, exubere nos acepipes:
pães, patês e muitos, muitos canapés
em consistências, combinações, cores, disposições e sabores tais
que façam os convidados sempre hesitarem
sobre o bocado seguinte a ser degustado.

Durante toda a recepção, encontre a medida certa
entre organizar e desfrutar o evento.
É sua a decisão da hora de cada rito
mas, para ser inesquecível,
é mister saber fazer o outro livre
a ponto de tomar iniciativa e fazer coisinhas
que transformem o evento “de seu” em “de cada um”.

Mas tudo isso não vale nada,
se não se souber abrir o peito e a morada,
como quem abre o corpo à pessoa amada,
fazendo da uma refeição uma noite de amor.




Arremedos de Vinícius, "Para viver um grande amor".

sábado, 24 de outubro de 2009

Poesia, polissemia, hipnotismo








Exposição do Bresson, no Sesc Pinheiro, em SP, até 20 dez 2009.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sob o céu de Alexandre


Foto: Alexandre Lima
Por este ângulo recortou o céu, Alexandre, quando caminhava com o filho, Gabriel, numa tarde dessas, em Aparecida de Goiânia. Técnico de formação, desenhista-técnico de ofício, cantor lírico de vocação e viciado em romances históricos, Alexandre é um manifesto contra a estereotipia e um monumento à imprevisibilidade da pessoa humana.

domingo, 18 de outubro de 2009

Vão combate


"Prefiro o erro (se é erro) à negação de si mesmo que é o limite da demência. A vida me fez aquilo que sou, isto é, prisioneiro (se assim se quer) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno e me entrego"

Assim prepara o arremate de uma longa carta que teria sido escrita no transcurso de um ano e 17 dias, sobre a aventura de assumir a própria condição e encontrar assim, se não a felicidade, pelo menos o sossego.

Pelas mãos de Luiz e Rezende, encontrei "Alexis" nesta meio amarga manhã de domingo e o bebi de um fôlego, entre duas pausas para cochilar, antes que chegasse a hora do primeiro almoço do horário de verão. Texto poderoso, capaz de dizer intimidades sem resvalar para as descrições vulgares, como quem oferece a sensação de liberdade e dor do precipício, apenas nos pondo a um passo do abismo.

Alexis fala das angústias, das negações vãs e dos silêncios que envolvem a existência de quem se sabe diferente. Yourcenar, já na primeira obra de ficção e aos 24 anos, demonstra com soberba a capacidade de usar a palavra para eclodir a dúvida e minar as convicções sobre o estabelecido. Sem panfletarismo, mas sem concessões.

14. BRINQUEDO - Viagem à Esponja

Não sei brincávamos de roda frequentemente ou se foi uma única vez. Provavelmente foram muitas, porque a música me ficou no cérebro, inclusive com sua letra originalíssima: "Fui na esponja buscar meu chapéu/ azul e branco da cor daquele céu"

Muitos anos e quilômetros depois ouvi crianças de outras paragens relatando viagens à "Espanha" para buscar o mesmo chapéu - o que faz mais sentido do que a minha "esponja", mas não me altera a memória nem os afetos. O resto dos versos não varia. Nem o final: "Cada qual pega o seu par pra não ficar como a vovó"

Eliane, minha irmã mais velha, tinha métodos nada democráticos de organizar a correria: determinava em cochichos ao ouvido de cada um a quem se devia buscar no final da brincadeira, para formar o par e não ser alvo da galhofa geral: "A bênção vovó que ficou no caritó"

Caritó, em pernambuquês, é o lugar dos que não se casam, o que evoca outra vez a licença poética: fora das brincadeiras de roda vovó sempre é alguém que escapou do caritó e formou grande prole... Deixa pra lá! A brincadeira terminava pra mim, quando Eliane cochichava no ouvido de todo mundo e pra mim dizia em alto e bom som: "Você pode ficar com qualquer um"... Era a desgraça: meu turno de vovó-no-caritó... Eu que nunca fui lá um mestre em artes de saber perder, protestava aos prantos, até sair da brincadeira ou a brincadeira sair da roda...

O bom é que o repertória era generoso: cantorias, jogo de pedra, barra-bandeira, boi-de-barro, cawboys de plástico, esconde-esconde, banho de açúde, escalada em pedras, helicóptero de sabugo e penas de galinha, bola de meia, chimbra, pular corda, passar o dedo na chama do candeeiro, fazer conchas com as mãos sobre a luz da lamparida só pra ver o vermelho da luz atravessando as articulações dos dedos, pegar vagalume, rodar tição em brasa pra fazer desenhos de luz no breu da noite... e um sem fim de coisinhas de encher a infância de sabor e a vida de marcas.

sábado, 17 de outubro de 2009

O poder da síntese



Londres 2012

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

13. CALO - Enjambement

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

12. EU - Confissão de um quase ateu

Creio no amor que é tudo e não pode coisa alguma,
criador de céus e de infernos,
e em Jesus de Nazaré, Gregório de Matos, Zumbi dos Palmares, Olga Benário, Hélder Câmara, Tereza de Calcutá, Harvey Milk, Hannah Arendt, Dorival Caymmi...
um sem número de filhos e filhas desse mesmo amor,
nossos irmãos e irmãs em prazeres e agonias,
concebidos pelo poder do acaso,
forjados mulheres e homens pelas agruras e sabores da vida.

Essa gente nasceu de mulheres admiráveis e condenadas ao anonimato
e padeceu sob dominadores de todos os tipos.
Crucificados, mortos e sepultados
desceram à mansão dos mortos
mas ressuscitaram e vivem em nós.
E, então, não precisam mais subir nem descer à lugar algum
nem sentar à direita ou à esquerda de nenhum todo poderoso
donde jamais virão a julgar os vivos nem os mortos.

Creio no amor e na justiça
na mobilização social e no bem-querer
na comunhão das pessoas que querem construir o bem
no perdão de erros e deslizes
na ressurreição
na vida efêmera
Amém!

domingo, 27 de setembro de 2009

Boneca que come gente





A minha é a número 3 (Reny de Oliveira), a que encontrei na década de 1980, recém-chegado de Açúde Novo, sítio onde vivi até os 11 anos e que só dispunha de tv a bateria, na condição de, depois, empurrar o Jeep em volta da casa, até ressusictar a carga comida pela novela.

Quando leio ou falo do Sítio do Pica-pau Amarelo, é aquela Emília gasguita que me saltita em passos miúdos e duros cérebro adentro. Morro de curiosidade de ver as primeiras Emílias em ação e assumo o meu despeito com as novas e modernosas Emílias...

No fundo, acho que Emília não come apenas as atrizes, cujos gestos emiliáticos continuam sendo adivinhados em todos os demais personagens (se por ventura os fazem)... Aos expectadores a famigerada boneca também submete e domina. A morte da Dirce Migliaccio que nem foi Emília pra mim, já aconteceu a quase uma semana e a boneca não me sai da cabeça?!!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

11. NOVO - Mago virtual

Jogo uma partidinha de cartas virtuais quando tenho um enigma que já está em cólicas de parto pra ser desvendado. (Tenho uns cinco simultâneos, agora). Escolho sempre FreeCell, porque sempre quero respostas afirmativas para os meus dilemas e, segundo as regras que defini para o meu jogo, uma vitória significa "sim"... Às vezes me esqueço e clico no "Paciência Spider" que sempre me fode com um retumbante "não".

Essas fraudezinhas não afetam a seriedade com que me lanço a esses búzios de araque. E, pelo resultado da partida de há pouco, vou passar para a próxima etapa da seleção para professores da Faculdade de Educação da UFG e meu projeto vai ser aceito no doutorado em comunicação da UFMG de uma tacada só - é mole?

Sobre esses concursos, digo pra todo mundo que estou contente de ter conseguido concluir o projeto a tempo de me inscrever, que essa participação é só uma etapa no meu processo até conseguir ser aprovado daqui a alguns anos e blá-blá-blá... (Outra fraudezinha). De verdade estou doido para que dois milagres aconteçam e que eu consiga virar, a um só tempo, professor de "Comunicação, mídia e educação" e aluno do doutorado da terceira melhor universidade do país.Enfim: sinto que terei muitas partidinhas de FreeCell até a virada do mês.

domingo, 20 de setembro de 2009

Germina o trigo na Trapa



O meu campo de trigo primeiro está na zona rural de uma cidade chamada campo (Campo do Tenente), visitada na Semana da Pátria. Ele está nos arredores de Curitiba e é para onde Bórtolo Valle seguirá, trocando a arengas da academia pelo rigor e frugalidade da vida monástica.

10. ABOMINÁVEL - Imortal



Eleito para a Academia Alagoana de Letras sem nenhuma obra que preste.
http://noticias.uol.com.br/politica/2009/09/02/ult5773u2330.jhtm

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

9. OCULTO - Sertão


domingo, 30 de agosto de 2009

Á flor da pele



Não me sai da memória as imagens dos meninos albinos, fugindo do sol escancarado das ladeiras de Olinda, nem o texto primoroso de João Valadares - expressão das infinitas formas de contar uma história.