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sexta-feira, 29 de março de 2013
"E nesse dia branco..."
A memória é um dos meus muitos cavalos sem freios. Se me fosse dado impor-lhe rédeas, a vista da cidade na manhã de hoje, seguramente, não seria esquecida. Pela terceira vez, mais ou menos, deu-se aquela combinação de frio e humidade que cria bolinhas de neve pequenas e em quantidade suficiente para pintar de branco cada galho magro das árvores e arbustos nus pelo inverno rigoroso de tantos meses. Uma paisagem bonita de ver, ainda mais num dia com poucos carros e muito silêncio.
Bem diferente da colorida, quente e não menos bonita paisagem dos meus tempos de Jesus, nas ruas de São Bento e nas estradas do Brejo Velho e de Olhos d'Água. Isso mesmo: fui um quase ator de quase sucesso de peças sazonais, com talento suficiente pra ser o José do Natal e o protagonista da sexta da paixão. Há umas fotos por aí para contestar certa incredulidade tanto relativa à minha carreira teatral, quanto ao hoje inimaginável fato de eu não ter precisado de peruca para o Nazareno, porque era eu mesmo um cabeludo. Como elas não estão comigo, dependo inteiramente da sua fé e da sua imaginação.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Tempo de passagem
Nesses dias vou inteirar seis meses ou o meio do caminho da minha estada em Winnipeg, justo no tempo em que o inverno dá sinais de finitude, perceptível na luminosidade cada vez mais larga dos dias, no passo desacelerado dos transeuntes e nas primeiras águas de degelo no passeio público. Desde que cheguei, acordo para os lados de onde brota o sol, mas sinto que estou na minha sala em Goiânia, portanto mirando o Oeste e ainda não houve bússola que corrigisse este meu senso "mareado".
Nas tardes, quando o cansaço das leituras me tira da mesa de trabalho, um dos meus prazeres correntes é simplesmente ficar de pé e admirar a gente que parece voltar pra casa sob uma luz laranja, como a dos sóis de agosto no Planalto Central do Brasil. Hoje, completou a cena, esse moço com urgência de leitura, a ponto de não fechar o livro nem na travessia da rua, muito menos na segurança da calçada. A rapidez da minha consciência de que aquilo era belo e a lentidão da minha máquina permitiram apenas dois cliques, mas é como se dois cenários completamente distintos tivessem sido montados quando, na verdade, fora dados dois ou três passos, não mais, testemunhados através de um vidro ainda embaçado por cem ou mais dias ininterruptos muitos dígitos abaixo de zero.
Nas tardes, quando o cansaço das leituras me tira da mesa de trabalho, um dos meus prazeres correntes é simplesmente ficar de pé e admirar a gente que parece voltar pra casa sob uma luz laranja, como a dos sóis de agosto no Planalto Central do Brasil. Hoje, completou a cena, esse moço com urgência de leitura, a ponto de não fechar o livro nem na travessia da rua, muito menos na segurança da calçada. A rapidez da minha consciência de que aquilo era belo e a lentidão da minha máquina permitiram apenas dois cliques, mas é como se dois cenários completamente distintos tivessem sido montados quando, na verdade, fora dados dois ou três passos, não mais, testemunhados através de um vidro ainda embaçado por cem ou mais dias ininterruptos muitos dígitos abaixo de zero.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Uma queda especial pela dança
Fora a notícia do meu nascimento, que arrastou pra casa metade dos convidados da festa de casamento de Zefa-de-Lianor e João-du-Nizo (quem sabe "João Dionísio" de batismo...), não costumo atrapalhar quem se diverte numa dança, porque considero isso um pecado capital. De todas as artes, a dança talvez seja a que mais me tira o fôlego, seja dançando ou apenas deslumbrado de ver quem dança. Por isso mesmo, quando entro em um teatro para ver um espetáculo, é comum fazer uma força extra para que o cérebro registre tudo e, logo, me dá uma tristezinha de saber que vou esquecer parte das cenas.
Felizmente, ainda moram em mim as lembranças do Balé Popular do Recife, numa apresentação feita em São Bento do Una, quando eu ainda era adolescente; a Gisele do Balé Nacional de Cuba, visto na minha juventude, nos tempos vividos em Havana; a coreografia dos ciclos de vida do cerrado, feita pelo Balé do Estado de Goiás, no começo dos anos 1990, quando estava chegando por lá; espetáculos da Quasar Cia. de Dança ainda com Duda Sharma e Luciana Caetano; Maracatu Nação Pernambuco e muitos outros deslumbramentos sem tamanho... Espero, muito sinceramente, que daqui a alguns anos recorde as imagens que o Royal Winnipeg Ballet, RWB, pintou na minha alma, ontem à noite, entre as quais as cenas desta postagem.
Era a estreia do clássico "Quebra-nozes" na cidade e eu consegui ir ao espetáculo com pouco mais de uma dúzia de estudantes da escola de inglês que, como eu, além de dança apreciam um bom desconto. A mais antiga e uma das mais prestigiadas companhias de dança do Canadá, o RWB tem um corpo de bailarinos diverso com a cidade, com gente do Japão, China, Ucrânia, Maldávia, México e Brasil, com dois bailarinos: Luzemberg Santana (Paraíba) e Thiago dos Santos (São Paulo), o primeiro recém-chagado e o outro já nesta companhia desde 2008.
Veja um pouquinho dos bastidores desta montagem, em registros do RWB de três anos atrás.
domingo, 23 de setembro de 2012
Sinos, meninos/as e texturas
Como
sou um cidadão, digamos assim, caseiro, tenho de armar planos para não ficar
enfurnado, ainda mais quando tenho o estímulo de ter de me paramentar inteiro
antes de por o pé na rua, em qualquer dia ou horário... Hoje, devido ao monte
de atividades de estudo, saí para comprar batata e cenoura, nada mais. Na
frente do supermercado, porém, havia um senhor templo que, justo naquela 10h30,
chamava fiéis para o culto, com sinos suaves como não havia escutado.
Resultado: caí no canto da sereia, atravessei a rua e entrei. Dentro, uma luz âmbar,
filtrada por vitrais gigantes de ambos lados da nave central, dava um clima de
útero, reforçado por uma disposição semicircular dos bancos centenários, com um
declive semelhante a teatros de arena, que possibilitam ver tudo e todos de
todos os lados, sem fazer esforço algum. Quando começou o culto não restou mais
dúvida sobre a razão do órgão de tubo ocupar o lugar do altar-mor das igrejas
católicas: na Westminster Church a
música tem uma centralidade indiscutível, como seria provada nos hinos entoados
pela assembleia, pelo coral ou pelas solistas.
Duas curiosidades a mais: o cumprimento da paz foi um momento bem gostosinho das pessoas conversarem de verdade e não apenas cumprirem uma formalidade; e o cuidado com as crianças foi um toque notabilíssimo: elas participaram na primeira parte do culto, junto aos pais, até que o pastor pôs um chapéu de palha e pegou uma vareta com um peixe de cartolina rosa pendurado por uma linha e as convidou para os bancos da frente. Apesar da indumentária, sem afetação ou papagaiada, conduziu a conversa mais delicada de que tenho memória sobre pescaria e sobre o recado de Jesus para “os discípulos pescarem pessoas”. Daí saiu com elas e as outras pessoas da Escola Dominical, pela lateral, enquanto outra pastora ocupava o púlpito para a Liturgia da Palavra, tendo as versões lucana (5,1-11) e joanina (21,1-14) do “milagre da pesca” sido lidas e, depois, interpretada num sermão interessante mas longo de doer.
Saí de lá com um riso de Monalisa na boca, comprei minhas batatas e cenouras e vim preparar meu almoço. Se quer saber, no mercado tinha até coentro, mas esta história fica pra depois.
Duas curiosidades a mais: o cumprimento da paz foi um momento bem gostosinho das pessoas conversarem de verdade e não apenas cumprirem uma formalidade; e o cuidado com as crianças foi um toque notabilíssimo: elas participaram na primeira parte do culto, junto aos pais, até que o pastor pôs um chapéu de palha e pegou uma vareta com um peixe de cartolina rosa pendurado por uma linha e as convidou para os bancos da frente. Apesar da indumentária, sem afetação ou papagaiada, conduziu a conversa mais delicada de que tenho memória sobre pescaria e sobre o recado de Jesus para “os discípulos pescarem pessoas”. Daí saiu com elas e as outras pessoas da Escola Dominical, pela lateral, enquanto outra pastora ocupava o púlpito para a Liturgia da Palavra, tendo as versões lucana (5,1-11) e joanina (21,1-14) do “milagre da pesca” sido lidas e, depois, interpretada num sermão interessante mas longo de doer.
Saí de lá com um riso de Monalisa na boca, comprei minhas batatas e cenouras e vim preparar meu almoço. Se quer saber, no mercado tinha até coentro, mas esta história fica pra depois.
sábado, 10 de março de 2012
A condição da mulher no Brasil
Conheci o material por indicação do professor Dijaci David de Oliveira e fiquei impressionado com a quantidade, a qualidade e a capacidade síntese da apresentação de diversas pesquisas do IBGE a respeito da condição da mulher em nosso país. O mais impressionante e cruel, porém, é o conjunto das informações que, de certa forma, ilustram o que percebíamos ou vivíamos desde muito tempo: as mulheres do Nordeste vivem, em média, 4 anos a menos que as do Sul e Sudeste e são desfavorecidas em mais de 1 ano, quando se observa a média de escolarização, sem contar que há uma separação de cerca de 10% entre as mulheres destes dois blocos que têm 11 ou mais anos de estudo. A publicação traz ainda informações sobre fecundidade, trabalho, casamento, violência e muito mais. Imperdível.sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
O poço das mulheres
Suaves ou duras, toda experiência que foge da trivialidade convoca em nós uma mutidão de pessoas que habitam nosso repertório de bem-querer, ora por necessidade de colo, ora por simples desejo de compartilhar risos e silêncios. No meu caso, dentre todas, a experiência de um bom filme é a que mais evoca boas companhias. E, nessa semana, o franco-belga-italiano "A Fonte das Mulheres", bateu o recorde dos meus chamados. Venham, então, vê-lo comigo: Auxiliadora Brito, Cristiany Brito, Deire Assis, Eliane Brito, Eliane Gonçalves, Francisca Beleza, Gabriela Penha, Heloisa Dias, Luisa Dias, Maria Aurora, Mariana, Mercedes Budallés, Michele Franco Nágila Al Kadi, Odorica Domingos, Quitéria Araújo de França, Romênia de Sousa, Salette, Senhorinha Francisca, Vanessa Correia, Vanildes Gonçalves, Vanuzia Brito, Vilma Avelar, Yolanda Setúbal...
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
A separação
Exatos
123 minutos de tensão, sem tréguas, alívios ou soluções: isso diz muito, embora
seja pouco para descrever “A separação”, filme que pulou para o topo da minha
lista de melhores longas. A complexidade de cada um dos personagens, admiráveis
e limitados, diz muito do Irã e da humanidade, impossível de ser enquadrada em
estereótipos maniqueístas. Amor abundante e comedido, necessidade e
generosidade, submissão e astúcia – são apenas alguns dos paradoxos mesclados
em porções precisas por Asghar Farhadi. Se estiver em cartaz na sua região, não deixe de ver!
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Mais um achado metodológico
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Metido a besta
É assim que fico toda vez que leio um livro de uma sentada/ encostada/ deitada, como fiz hoje à tarde com "A arte de pesquisar", da Mirian Goldenberg. Não, não estou fazendo trabalho final de nenhuma disciplina; também não vou mentir que peguei esse livro só de vadiagem intelectual... Na verdade, estou parteira de 8 artigos, já passados da hora de nascer, da Pós-graduação em Educação para a Diversidade e a Cidadania, oferecida pelo Programa de Direitos Humanos da UFG, ao mesmo tempo em que preparo uma semana de aulas na Pós-graduação em Adolescência e Juventude no Mundo Contemporâneo, que será ofereceda pela PUC-Goiás e Casa da Juventude, loguinho que 2012 chegar. Nos dois casos, orientação metodológica é o meu ofício.
Se o livro fosse chato, porém, não haveria obrigação que me fizessem acabá-lo em uma tarde: tenho mil estratégias de postergar uma leitura encruada, incluindo pausas sistemáticas e intercaladas para beber água, conferir e-mails, checar notícias e até tirar uma soneca... Hoje, nada disso foi necessário. Simplesmente porque a Miriam Goldenberg sabe fazer interessante e envolvente até os assuntos que a maioria não sabe dar mais que o tratamento literário reservado às bulas de remédio. Se ela faz isso com metodologia de pesquisa, o que não terá feito em "Toda mulher é meio Leila Diniz", "Infiel" e "Coroas"?
Na minha curiosidade, vai a dica para quem estava descabelando para escolher o meu presente de Natal...
Se o livro fosse chato, porém, não haveria obrigação que me fizessem acabá-lo em uma tarde: tenho mil estratégias de postergar uma leitura encruada, incluindo pausas sistemáticas e intercaladas para beber água, conferir e-mails, checar notícias e até tirar uma soneca... Hoje, nada disso foi necessário. Simplesmente porque a Miriam Goldenberg sabe fazer interessante e envolvente até os assuntos que a maioria não sabe dar mais que o tratamento literário reservado às bulas de remédio. Se ela faz isso com metodologia de pesquisa, o que não terá feito em "Toda mulher é meio Leila Diniz", "Infiel" e "Coroas"?quarta-feira, 30 de novembro de 2011
A elegância do auriço
Esse é o título do livro de Muriel Barbery, que habitou minha cabeceira nos últimos dias, do qual me despedi hoje à tarde. Estava com saudade de uma leitura dessas cuja obrigação é apenas nos arrebatar com o poder sugestivo das palavras "bem ditas", sem nada de conceitos a serem assimilados ou contestados... Numa época de tantas ansiedades pelas seleções acadêmicas de amigos e, portanto, também minhas, mando um trecho dos que, como no princípio, escrevi no caderno que registra as palavras que me arrancam de uns e me plantam em outros solos:
"Lembro-me de toda aquela chuva... O barulho da água martelando o telhado, os caminhos inundados, o mar de lama nas portas de nossa fazenda, o céu negro, o vento, a sensação atroz de uma umidade sem fim, que nos pesava tanto quanto nos pesava a nossa vida: sem consciência nem revolva. Estávamos apertados uns contra os outros perto da lareira quando, de repente, minha mãe se levantou, desequilibrando toda a turma; surpresos, nós a vimos dirigir-se para a porta e, movida por um obscuro impulso, escandará-la. [...] Na moldura da porta, imóvel, os cabelos grudados no rosto, o vestido encharcado, os sapatos cobertos de lama, o olhar parado, estava Lisette. Como minha mãe soubera? Como essa mulher que, embora não nos maltratasse, jamais dera a entender que nos amava, nem com gesto nem com palavra, como essa mulher rude que dava à luz seus filhos da mesma maneira que revirava a terra ou alimentava as galinhas, como essa mulher analfabeta, embrutecida a ponto de nunca nos chamar pelo nome que nos dera e que duvido que ainda lembrasse, soube que sua filha semi-morta, que não se mexia nem falava e olhava fixo para a porta sob a chuva torrencial sem sequer pensar em bater, esperava que alguém abrisse e a fizesse entrar no calor?" (BARBERY, Muriel. A elegância do ouriço. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 307-308)
"Lembro-me de toda aquela chuva... O barulho da água martelando o telhado, os caminhos inundados, o mar de lama nas portas de nossa fazenda, o céu negro, o vento, a sensação atroz de uma umidade sem fim, que nos pesava tanto quanto nos pesava a nossa vida: sem consciência nem revolva. Estávamos apertados uns contra os outros perto da lareira quando, de repente, minha mãe se levantou, desequilibrando toda a turma; surpresos, nós a vimos dirigir-se para a porta e, movida por um obscuro impulso, escandará-la. [...] Na moldura da porta, imóvel, os cabelos grudados no rosto, o vestido encharcado, os sapatos cobertos de lama, o olhar parado, estava Lisette. Como minha mãe soubera? Como essa mulher que, embora não nos maltratasse, jamais dera a entender que nos amava, nem com gesto nem com palavra, como essa mulher rude que dava à luz seus filhos da mesma maneira que revirava a terra ou alimentava as galinhas, como essa mulher analfabeta, embrutecida a ponto de nunca nos chamar pelo nome que nos dera e que duvido que ainda lembrasse, soube que sua filha semi-morta, que não se mexia nem falava e olhava fixo para a porta sob a chuva torrencial sem sequer pensar em bater, esperava que alguém abrisse e a fizesse entrar no calor?" (BARBERY, Muriel. A elegância do ouriço. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 307-308)domingo, 2 de outubro de 2011
Vida Maria
Talvez por ser uma animação, com possibilidades de imaginação próxima da literatura, este curta me devolve a mil histórias, lugares e Marias do meu percurso. Vejo-o sempre com respiração curta, frio no estômago e lágrimas nos olhos.
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domingo, 10 de abril de 2011
Pensando com Tadeu Lima
Envolta em mil fantasias edificantes, a escola pode ser, e muitas vezes efetivamente é, um espaço de sofrimento de diversos tipos e, por outro lado, de exercício do que há de pior e assombroso em nós. É claro que este também pode ser um espaço e um tempo de construção efetiva de gente bacana e de um mundo capaz de lidar com a múltiplas formas de sermos humanos. A campanha abaixo me chegou através de Tadeu Lima e eu a registro aqui porque tenho a sensação de que vou querer vê-la outras vezes, mesmo daqui a alguns anos.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Aplauso para a civilidade
Adoro a ideia dos flashmobs, enquanto possibilidade de intervenção no espaço urbano, com uma pitada de uso sagaz das novas tecnologias a serviço da articulação de pessoas que querem dar um recado (qualquer que seja) e ainda com o charme dos rápidos aparecimentos e sumiços no cotidiano das metrópolis. Esse aqui me foi indicado pela colega Natália Assis - que sabe da minha particular vulnerabilidade circunstancial referente a tudo que diga respeito à resíduos sólidos, educação ambiental e civilidade. Confere aí!
terça-feira, 29 de março de 2011
Ferdinando, as flores e a (in)tolerância
quarta-feira, 23 de março de 2011
Onde vai parar o lixo nosso de cada dia?
Normalmente acompanhamos o percurso dos resíduos que produzimos, no máximo, das sacolinhas de compras reaproveitadas em nossas casas até o latão comum dos condomínios ou à calçada de casa onde um caminhão com barulho a insalubres decibéis opera a coleta. Daí para a frente, "não sabemos e temos raiva de quem sabe".
“Temos”, nesse caso, é força do costume de escrever num falso plural, porque "eu" me interesso sim (embora também ainda saiba pouco sobre o local exato para onde vão as minhas cacas). Amanhã, porém, terei a oportunidade de uma aproximação a esse universo, visitando o aterro sanitário de Aparecida de Goiânia, como atividade da disciplina Gerenciamento de Resíduos Sólidos Urbanos, ministrada por Simone Pfeiffer, professora do Mestrado em Engenharia Ambiental.
“Temos”, nesse caso, é força do costume de escrever num falso plural, porque "eu" me interesso sim (embora também ainda saiba pouco sobre o local exato para onde vão as minhas cacas). Amanhã, porém, terei a oportunidade de uma aproximação a esse universo, visitando o aterro sanitário de Aparecida de Goiânia, como atividade da disciplina Gerenciamento de Resíduos Sólidos Urbanos, ministrada por Simone Pfeiffer, professora do Mestrado em Engenharia Ambiental.
O que eu estou fazendo nas searas das Engenharias? Bom, isso é outra conversa mas, de qualquer maneira, não causa nenhuma estranheza a quem me conhece há mais tempo e, portanto, sabe dos meus gostos indisciplinados quanto a fronteiras, como quem tem uma espécie de saudade do caos dos tempos clássicos, quando filósofos eram também poetas, transitavam pela teologia, criavam geringonças e otras cositas más.
Voltando ao tema dos resíduos, dá uma olhadinha nos vídeos que localizei de uma série produzida pela Globo, começando pelo quase inacreditável sistema implantado em Barcelona e que fechou a série. Para quem habita este lado do Atlântico e a parte sul do hemisfério, parece coisa de cinema.
Se tiver tempo e curiosidade, não deixe de ver as outras matérias da série, veiculada no Jornal Nacional entre 3 e 8 de maio de 2010:
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Manifesto contra as antropologias de soslaio e as sociologias de vagabundagem
No próximo ano completarei duas décadas em Goiás, mas ainda lembro da urticária que me dava quando meus alunos e alunas da antiga Feclip e atual UEG de Iporá voltavam de férias cheios de sabedoria sobre o Nordeste. De lá prá cá minha irritação evoluiu muito e hoje beira a ferocidade. Mas, diz aí, tem algo mais aborrecido do que gente que retorna de uma mísera semana de viagem, passada em acomodações sofridas pela grana sempre curta e que desce do voo promocional arrotando ciências sociais de araque, do tipo: "Ah, o povo do nordeste é assim...", "As pessoas de Minas são assadas..."?. Pior do que isso só os pedantes e endinheirados que aplicam a mesma cientificidade rasa à gente de Cacum, de Paris ou da Terra Santa...
Dias atrás, quando o prazo acabou e fui obrigado a sapecar umas considerações finais no trabalho da Telma Nascimento, rápido agarrei um livro que a Michele Franco me emprestou, pra não esquecer dos tempos em que eu lia sem obrigação de entender nem de encrencar com o/a autor/a. Puro deleite. O livro era de Filosofia mas, calma, era uma obra de Luc Ferry, um francês que anda por aí ainda hoje e que, não tivesse outros méritos, sabe por em idioma inteligível reflexões fundas sobre a "condição humana".
Sobre isso, aliás, vai o trechinho do livro lido, escolhido, evidentemente, por ser uma arma potente na minha cruzada contra os essencialistas de todo naipe, sempre dispostos a equiparar humanos a ratos, com suas teses precárias a respeito de nordestinos, mineiros, mulheres, negros, viados, pobres e tantos e tantas mais:
"Os animais têm uma "essência" comum à espécie que precede sua existência individual. Existe uma "essência" do gato ou do pombo, um programa natural (o "instinto") que o faz ser granívoro ou carnívoro, e esse programa é tão perfeitamente comum a todos os membros de uma mesma espécie que a existência particular de cada indivíduo que a ela pertence está determinada do começo ao fim: nenhum gato, nenhum pombo pode fugir dessa essência que o determina do começo ao fim e suprime assim nele qualquer espécie de liberdade. Por isso todos os pombos e todos os gatos se parecem a ponto de de ser quase indiscerníveis...
No que concerne ao ser humano, é o inverso: nenhuma essência o determina inteiramente, nenhum programa consegue jamais encerrá-lo de todo, nenhuma categoria o aprisiona tão absolutamente que ele não possa, ao menos em parte - a da liberdade - dela se emancipar por menos que seja. É claro que nasço homem ou mulher, francês ou estrangeiro à França, num meio rico ou pobre, da elite ou popular etc. Mas nada prova que essas categorias de partida me apresem nelas para o resto da vida"
Dias atrás, quando o prazo acabou e fui obrigado a sapecar umas considerações finais no trabalho da Telma Nascimento, rápido agarrei um livro que a Michele Franco me emprestou, pra não esquecer dos tempos em que eu lia sem obrigação de entender nem de encrencar com o/a autor/a. Puro deleite. O livro era de Filosofia mas, calma, era uma obra de Luc Ferry, um francês que anda por aí ainda hoje e que, não tivesse outros méritos, sabe por em idioma inteligível reflexões fundas sobre a "condição humana".
Sobre isso, aliás, vai o trechinho do livro lido, escolhido, evidentemente, por ser uma arma potente na minha cruzada contra os essencialistas de todo naipe, sempre dispostos a equiparar humanos a ratos, com suas teses precárias a respeito de nordestinos, mineiros, mulheres, negros, viados, pobres e tantos e tantas mais:
"Os animais têm uma "essência" comum à espécie que precede sua existência individual. Existe uma "essência" do gato ou do pombo, um programa natural (o "instinto") que o faz ser granívoro ou carnívoro, e esse programa é tão perfeitamente comum a todos os membros de uma mesma espécie que a existência particular de cada indivíduo que a ela pertence está determinada do começo ao fim: nenhum gato, nenhum pombo pode fugir dessa essência que o determina do começo ao fim e suprime assim nele qualquer espécie de liberdade. Por isso todos os pombos e todos os gatos se parecem a ponto de de ser quase indiscerníveis...
No que concerne ao ser humano, é o inverso: nenhuma essência o determina inteiramente, nenhum programa consegue jamais encerrá-lo de todo, nenhuma categoria o aprisiona tão absolutamente que ele não possa, ao menos em parte - a da liberdade - dela se emancipar por menos que seja. É claro que nasço homem ou mulher, francês ou estrangeiro à França, num meio rico ou pobre, da elite ou popular etc. Mas nada prova que essas categorias de partida me apresem nelas para o resto da vida"
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
"Yo tengo más que el leopardo..."
Se me lembro bem, a queixa dela é não ter direito a um aniversário "normal", com bolo, refrigerantes, docinhos, montes de presentes (a maioria chatos) e, principalmente, não ter aquele dia em que ocupamos, legitimamente, o posto de centro das atenções... Nascendo num dias desses, claro, há sempre uns festões, presépios, "ho-ho-ho-hos" e outros milhões de coisinhas em torno de "outro" aniversariante que sempre ameaçam o brilho e o sabor do dia especial que todo aniversariante deveria ter direito a ter. Por ela, proibiam-se nascimentos em dia de festas badaladas, especialmente no Natal.
Para quebrar as tradições de natais e aniversários estereotipados, segui a pista dada pela própria aniversriante e investi esta manhã buscando uma versão suficientemente bonita dos versos de José Marti com que ela nos recordou do seu aniversário deste ano. Célia Cruz? Raízes de América? The Sandpipers? Buena Vista Social Club? Nana Mouscouri e Joe Dassin? Não consegui escolher a mais vibrante, mais bonita, mais tocante... Seria um presente para ela, terminou sendo um presente para mim. Recomendo, de qualquer forma, que curta todas e muitas outras versões disponíveis, com as quais celebro, hoje, a tua vida, CIDA ALVES!
Para quebrar as tradições de natais e aniversários estereotipados, segui a pista dada pela própria aniversriante e investi esta manhã buscando uma versão suficientemente bonita dos versos de José Marti com que ela nos recordou do seu aniversário deste ano. Célia Cruz? Raízes de América? The Sandpipers? Buena Vista Social Club? Nana Mouscouri e Joe Dassin? Não consegui escolher a mais vibrante, mais bonita, mais tocante... Seria um presente para ela, terminou sendo um presente para mim. Recomendo, de qualquer forma, que curta todas e muitas outras versões disponíveis, com as quais celebro, hoje, a tua vida, CIDA ALVES!
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Lavras e louvores
Texto: Walderes Brito
Fotografias: Wolney Fernandes de Oliveira
Fotografias: Wolney Fernandes de Oliveira

A visita a um museu pode ser uma profunda experiência mística – sei disso, visceralmente, desde o mês passado, quando o Museu Antropológico da UFG me abriu as portas (e muitas portas e janelas em mim) para “Lavras e Louvores”, exposição de longa duração, com curadoria das antropólogas Selma Sena e Nei Clara de Lima, professoras da UFG. Recomendo, vivamente, que não entrem na sala antes de ler o conceito da exposição que não apenas nos prepara para a experiência quanto, em sintéticos dois parágrafos expostas à esquerda da entrada, põe em frangalhos nosso linear-progressivo-rígido e equivocado modo de enxergar as temporalidades e de convencionar fronteiras de todas as naturezas. O choque do texto tem o condão de fazer ver, em nós e no mundo, como e quanto o presente, o passado e o devir mesclam-se numa complexa e envolvente tecitura.
Quando ultrapassar o batente, você terá os pés postos na cintura de um “oito” ou de um sinal matemático de “infinito”, e será silenciosamente convidado a caminhar à direita ou à esquerda, conforme mandem as ancestralidades que habitam o que corpo que você é. As minhas me arrastaram ao caminho das lavras, num movimento que me conduziu da penumbra para a iluminação e da audição de uma espécie de sofejo para uma música marcadamente indígena – ambas tornadas plenas quando se chega à cabeça ou aos pés do “oito” ou do “infinito” – lugar ladeado por um painel de cobertas tecidas, quem sabe, pela mãe ou pela avó de qualquer de nós, porque dificilmente não há em nosso repertório a memória de ao menos um sono acalentado sob uma daquelas sofisticadas tramas e padrões.

Outra vez na cintura do “oito”, dê um passo à frente e se detenha para contemplar o portal em arco de flores de papel suspensas sobre a sua cabeça, num tempo e num espaço nos quais, seguramente, habitamos: hora dos louvores! Como estava sozinho, não tive vergonha de evoluir dançando: é que não consegui me mover neste quadrante a não ser na cadência das caixas e do canto dos foliões que crescia ao fundo.
E o fundo não era o fim. Depois dele, uma passagem de finas cortinas coloridas, transparentes, sobrepostas impediam a visão ao mesmo tempo em que insinuavam o além. Resolvi me arriscar por entre os tules e esbarrei em altares de todas as divindades. Na lateral à esquerda, o único lugar a plena luz, me arrastou para o insigt definitivo: um cubículo com espelhos, recobertos por fotos vazadas de pessoas, dispostas numa espécie de jogo da velha, completado apenas com a inserção da nossa própria cara refletida, compondo o quadro da diversidade das gentes do sertão. Caminhei com esse “sentido” mais uma vez através da sacralidade, despedi-me da folia, não sem antes admirar as rendas e os dourados de Oxun das águas doces de outras e também destas paragens. Uma vez mais na cintura do “infinito” tanto fazia refazer o caminho das “Lavras e Louvores” quanto transbordar para a vida: nada mais podia ser como antes.

Serviço:
Museu Antropológico da UFG
Exposição Lavras e Louvores
Praça Universitária
Terça a sexta, 9 às 17h00
Museu Antropológico da UFG
Exposição Lavras e Louvores
Praça Universitária
Terça a sexta, 9 às 17h00
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Mulheres sobre Mulheres
Um dos meus argumentos sobre o valor de uma espécie de "educação para a recepção crítica aos media" tem a ver, por um lado, com o elevado grau de exposição a que todos nós estamos expostos e, por outro lado, pela absoluta necessidade de desenvolver critérios capazes de distinguir, minimamente, o joio do trigo, cada vez mais indecifráveis sob capas e capas de maquiagem, iluminação, edição e o diabo a quatro. Um bom treino, nesse percurso, é assistir o episódio abaixo do "Entre Aspas", com três mulheres chamosas e inteligentíssimas debatendo sobre uma quarta mulher, Dilma Rousseff na presidência, e depois ler (só depois, se conseguir não morrer de curiosidade) um texto de uma quinta mulher ingualmente charmosa e inteligente, a respeito de um, digamos, deslize revelador das questões de gênero que precedem, perpassam e transcendem àquele debate. Aviso aos navagantes que o programa é mega interessante e envolvente, o que torna a tarefa de detectar o tal "deslize" umé coisa para "iniciados", como um sofisticado jogo de 7 erros...
Sem mais delongas, senhoras e senhores, primeiro Mônica Waldvogel, Marta Suplicy e Fátima Pacheco Jordão e, em seguida, Eliane Gonçalves!
Agora, sim, leia o texto a Eliane Gonçalves.
Sem mais delongas, senhoras e senhores, primeiro Mônica Waldvogel, Marta Suplicy e Fátima Pacheco Jordão e, em seguida, Eliane Gonçalves!
Agora, sim, leia o texto a Eliane Gonçalves.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Da sacola pra dentro
Há tempos não fazia cálculo que quanto pode render a leitura de um livro, para aconomizar a curtição como, na infância, lambia em slow motion pirulito zorro, delícia de abacaxi feita por "Corrinho" (irmã temporã do meu pai) e bombocado da Padaria Sertaneja, localizada na Praça Rádio Clube, de São Bento do Una... Para entender meu deleite, vai uma lambidinha:
"Você nunca sabe o dia em que vai encontrar o amor da sua vida. Por isso, nenhum aviso, nenhuma premonição ou intuição me preparou para aquela noite fria de maio. Como já faz tempo que isso aconteceu, posso falar agora, em detalhes, sobre o momento que antecede o encontro com o amor de sua vida. Sobre os segundos que separam sua existência até ali do resto dela. Trata-se, entendam, de um tempo muito peculiar, medido em frações de segundos. Trata-se de uma fenda temporal, mais exatamente. Mas, se você ficar atento, conseguirá, depois que tudo passar, lembrar de cada um dos detalhes, como eu faço agora."
"Você nunca sabe o dia em que vai encontrar o amor da sua vida. Por isso, nenhum aviso, nenhuma premonição ou intuição me preparou para aquela noite fria de maio. Como já faz tempo que isso aconteceu, posso falar agora, em detalhes, sobre o momento que antecede o encontro com o amor de sua vida. Sobre os segundos que separam sua existência até ali do resto dela. Trata-se, entendam, de um tempo muito peculiar, medido em frações de segundos. Trata-se de uma fenda temporal, mais exatamente. Mas, se você ficar atento, conseguirá, depois que tudo passar, lembrar de cada um dos detalhes, como eu faço agora." (LACOMBE, Milly. O dia em que você encontra o amor da sua vida. In: tudoésóisso: amor, conquistas e outros prazeres fundamentais. São Paulo: Saraiva, 2010)
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