terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Lavras e louvores

Texto: Walderes Brito
Fotografias: Wolney Fernandes de Oliveira



A visita a um museu pode ser uma profunda experiência mística – sei disso, visceralmente, desde o mês passado, quando o Museu Antropológico da UFG me abriu as portas (e muitas portas e janelas em mim) para “Lavras e Louvores”, exposição de longa duração, com curadoria das antropólogas Selma Sena e Nei Clara de Lima, professoras da UFG. Recomendo, vivamente, que não entrem na sala antes de ler o conceito da exposição que não apenas nos prepara para a experiência quanto, em sintéticos dois parágrafos expostas à esquerda da entrada, põe em frangalhos nosso linear-progressivo-rígido e equivocado modo de enxergar as temporalidades e de convencionar fronteiras de todas as naturezas. O choque do texto tem o condão de fazer ver, em nós e no mundo, como e quanto o presente, o passado e o devir mesclam-se numa complexa e envolvente tecitura.

Quando ultrapassar o batente, você terá os pés postos na cintura de um “oito” ou de um sinal matemático de “infinito”, e será silenciosamente convidado a caminhar à direita ou à esquerda, conforme mandem as ancestralidades que habitam o que corpo que você é. As minhas me arrastaram ao caminho das lavras, num movimento que me conduziu da penumbra para a iluminação e da audição de uma espécie de sofejo para uma música marcadamente indígena – ambas tornadas plenas quando se chega à cabeça ou aos pés do “oito” ou do “infinito” – lugar ladeado por um painel de cobertas tecidas, quem sabe, pela mãe ou pela avó de qualquer de nós, porque dificilmente não há em nosso repertório a memória de ao menos um sono acalentado sob uma daquelas sofisticadas tramas e padrões.



O caminho de volta, da luz e da música outra vez para a penumbra e o silêncio, surpreende pela quantidade, pela diversidade, pela originalidade e pela delicadeza com que diferentes povos nativos na região documentam a fauna local, em aves, répteis, mamíferos e peixes de palha, barro e madeira. Um espanto pensar que temos (ou tínhamos) tanta riqueza e que elas foram tão minuciosa e artisticamente catalogadas através dos tempos...

Outra vez na cintura do “oito”, dê um passo à frente e se detenha para contemplar o portal em arco de flores de papel suspensas sobre a sua cabeça, num tempo e num espaço nos quais, seguramente, habitamos: hora dos louvores! Como estava sozinho, não tive vergonha de evoluir dançando: é que não consegui me mover neste quadrante a não ser na cadência das caixas e do canto dos foliões que crescia ao fundo.

E o fundo não era o fim. Depois dele, uma passagem de finas cortinas coloridas, transparentes, sobrepostas impediam a visão ao mesmo tempo em que insinuavam o além. Resolvi me arriscar por entre os tules e esbarrei em altares de todas as divindades. Na lateral à esquerda, o único lugar a plena luz, me arrastou para o insigt definitivo: um cubículo com espelhos, recobertos por fotos vazadas de pessoas, dispostas numa espécie de jogo da velha, completado apenas com a inserção da nossa própria cara refletida, compondo o quadro da diversidade das gentes do sertão. Caminhei com esse “sentido” mais uma vez através da sacralidade, despedi-me da folia, não sem antes admirar as rendas e os dourados de Oxun das águas doces de outras e também destas paragens. Uma vez mais na cintura do “infinito” tanto fazia refazer o caminho das “Lavras e Louvores” quanto transbordar para a vida: nada mais podia ser como antes.



Serviço:
Museu Antropológico da UFG
Exposição Lavras e Louvores
Praça Universitária
Terça a sexta, 9 às 17h00

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