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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

22. CHAGA - "Buraco do Tatu"

Esse era o nome do lugar mais misterioso e proscrito da, agora, sesquicentenária São Bento do Una, minha cidade de origem. O motivo era óbvio: Buraco do Tatu era o lugar dos cabarés para onde os homens da cidade escapuliam no breu da noite e onde as quengas se escondiam durante o dia, em casebres de taipa sem reboco, no caminho do esgoto que escorria de toda a Avenida Manoel Cândido e da Rua Cira Mota, vindos tanto do nascer quanto do pôr-do-sol. Quem estudava no Colégio Estadual precisava dar uma volta quase lá pela Cilpe ou pela rua do Armazém dos Cadetes só para não cruzar nenhum dos proibidíssimos becos do Buraco do Tatu. Menina, então, dependendo da piedade cristã da família, não podia nem pronunciar o nome... Meninos ficavam na dúvida, alguns ansiosos outros aflitos, se o pai um dia ia arrastá-lo pra lá, como quem atravessa o portal de acesso ao universo dos machos. Isso durou mais de dois terços dos 150 anos de São Bento, até que um prefeito messiânico com nome composto resolveu “cristianizar” a cidade, tirando as putas para um canto afastado e transformando o lendário Buraco do Tatu numa insossa Rua da Alegria, que tá lá até hoje. Quem sabe, porém, que por baixo dessa Alegria jaze um Buraco do Tatu ainda passa cabreiro por aquelas imediações.

sábado, 1 de maio de 2010

21. INVISÍVEL - E bem real

Pulga atrás da orelha; cheiro de gaveta de avó; apenas uma, entre dezenas de surras de infância remota; a certeza de que, cedo ou tarde, o computador vai comer um trabalho que você suou para fazer, acompanhada da sensação de que não fará outro tão bom quanto o que perdeu. Dúvida sobre as escolhas feitas; dúvidas sobre o que fazer agora; dúvidas sobre amanhã; coceira debaixo da pele; ferozes debates fantasiados em resposta a desaforos que ouviu e que não conseguiu responder na lata, fervidos no ódio mortal e justificado da leseira do próprio cérebro. Água já entornada em garganta seca; o arredondado do céu; cenas de uma história, até que a narrativa seja aprisionada em uma imagem fixa ou móvel e bem descritiva - nanismo das visualidades imaginárias.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

18. CANTO - Secretamente compartilhado

Embaixo da cama: canto eleito para guardá-la por ser o mais privado possível, ali pelos oito ou nove anos. Ela veio de São Paulo, cheia de roupas usadas, mandadas pelos parentes de lá, no retorno de uma viagem de mamãe que, até hoje, não consigo dizer porque teria sido feita exatamente naquela época. Nem antes nem depois. Após o rateio dos regalos de segunda, festejados como se de primeiríssima fossem, a mala verde foi o que me coube, por recíproca eleição, começando ali uma longa relação de mistérios e cumplicidades.

Desde então, arrastei essa mala para debaixo da minha cama por três ou quatro casas para as quais nos mudamos, através da minha infância-puberdade-adolescência e juventude... Nela cabia, em segredo e síntese, tudo que habitava em mim: coleção de tampas de margarida de super heróis; álbuns de figurinhas invariavelmente inconclusos; pacotes de gibis comprados, nos sábados que eu podia ir do sítio à feira, na banca do seu Genésio e da dona Marli, com predomínio da turma do Bolinha e da Luluzinha, com suas mães de peitos fartos e bundas murchas, vendas de limonada em caixote, com rã atirada dentro da jarra e brigas com a turma da zona norte... Também tinha coleção de meia dúzia de chaveiros e um inútil “compacto” de história infantil numa casa sem vitrola.

Entre outras relíquias, que eu julgava invioladas, embora a mala não tivesse chave, uma “milhaeira” de cerâmica em forma e cor de moranga, onde eu guardava minhas moedas e que, soube muito mais tarde, era o mesmo lugar de onde Vanuzia e Amanda, minha irmã e prima quase gêmeas, com uma faca de mesa e muita habilidade, tiravam toda tarde, no meu horário de aula, o soldo para financiar esbórnias de picolés e pipocas com textura de isopor, disponíveis na banca do seu Babá.

Esta, porém, já é outra história, ainda sem suficiente acerto de contas...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

17. CÓSMICO - Avesso

Dado à luz na caatinga, acabei dado a penumbras e nevoeiros. Sol, pra mim, evoca a seca de “70” narrada com amarguras e a do início dos anos 80, vivida na plenitude da aridez, com água regrada até pra beber e cozinhar, que dirá pra tomar banho... Céu azul e horizonte aberto, quiçá por isso, ao invés de encantamento, me dão tremor e enfado. Gosto mesmo é de nuvens gordas e de céu pardo, desses que quase se toca com a mão e que logo se derrama em aguaceiro, ao som de trovões graves e agudos, acompanhados de coriscos incendiando o breu. Cerração não me deprime. Dá até conforto: nada de suor, nada de pele crestada, nada de luz furando a retina. Até o sol fica bom de ver quando há uma cortina de nuvens que o converte numa espécie de lua, dessas que gostam de se mostrar dengosas, hipnotizando gentes e bichos. Na cidade, só vejo edifício de longe. O sol causticante do Agreste me viciou em horizontalidades. Normalmente, ignoro o que habita acima da minha calvície. Estrelas cadentes, acho até bonitas, mas não tenho paciência de ficar esperando com a cara pra cima. Resultado: só vi uma e mesmo assim porque me mostraram, numa peripécia amorosa nos matos gerais... Por essas e outras, minhas preferidas são as viagens ao infinito pelo avesso: de multidões a grupos, pessoas, um, membros, células, núcleos, ocos sem fim nem fundo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

15. MOTIM - Peixeira poética


Dia desses Gilmara, que tem a idade da minha irmã mais nova e ainda mora na casa em que foi nossa vizinha, perguntou se eu tinha aquele poema que pintei na parede da nossa casa em São Bento do Una, quando o ano 2000 ainda parecia uma miragem... O poema a que se refere foi encontrado não me lembro onde mas, provavelmente, nos velhos livros com que preparava aulas como professor substituto de alguma escola da cidade. Era do "Boca do Inferno" e, embora escrito para "homenagear" a capital soteropolitana do século XVI, me parecia perfeito para alfinetar minha província de quatro século depois.
Mais adolescentes que eu, Vanuzia e Cristiany, minhas irmãs número 2 e 3, recortaram letras comigo e também prepararam os restos de tinta Acrilex que, sendo para tecido e as únicas disponíveis, foram usadas assim mesmo para colorir a parede mais pública da nossa casa, a jatos de uma daquelas bombas de matar "muriçocas". Por uns dias fui chamado de "Gregório" na cidade e, pelo visto, tá chegando a hora da vizinha com memória de elefante virar "Gilmara de Matos Guerra"...

domingo, 18 de outubro de 2009

14. BRINQUEDO - Viagem à Esponja

Não sei brincávamos de roda frequentemente ou se foi uma única vez. Provavelmente foram muitas, porque a música me ficou no cérebro, inclusive com sua letra originalíssima: "Fui na esponja buscar meu chapéu/ azul e branco da cor daquele céu"

Muitos anos e quilômetros depois ouvi crianças de outras paragens relatando viagens à "Espanha" para buscar o mesmo chapéu - o que faz mais sentido do que a minha "esponja", mas não me altera a memória nem os afetos. O resto dos versos não varia. Nem o final: "Cada qual pega o seu par pra não ficar como a vovó"

Eliane, minha irmã mais velha, tinha métodos nada democráticos de organizar a correria: determinava em cochichos ao ouvido de cada um a quem se devia buscar no final da brincadeira, para formar o par e não ser alvo da galhofa geral: "A bênção vovó que ficou no caritó"

Caritó, em pernambuquês, é o lugar dos que não se casam, o que evoca outra vez a licença poética: fora das brincadeiras de roda vovó sempre é alguém que escapou do caritó e formou grande prole... Deixa pra lá! A brincadeira terminava pra mim, quando Eliane cochichava no ouvido de todo mundo e pra mim dizia em alto e bom som: "Você pode ficar com qualquer um"... Era a desgraça: meu turno de vovó-no-caritó... Eu que nunca fui lá um mestre em artes de saber perder, protestava aos prantos, até sair da brincadeira ou a brincadeira sair da roda...

O bom é que o repertória era generoso: cantorias, jogo de pedra, barra-bandeira, boi-de-barro, cawboys de plástico, esconde-esconde, banho de açúde, escalada em pedras, helicóptero de sabugo e penas de galinha, bola de meia, chimbra, pular corda, passar o dedo na chama do candeeiro, fazer conchas com as mãos sobre a luz da lamparida só pra ver o vermelho da luz atravessando as articulações dos dedos, pegar vagalume, rodar tição em brasa pra fazer desenhos de luz no breu da noite... e um sem fim de coisinhas de encher a infância de sabor e a vida de marcas.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

12. EU - Confissão de um quase ateu

Creio no amor que é tudo e não pode coisa alguma,
criador de céus e de infernos,
e em Jesus de Nazaré, Gregório de Matos, Zumbi dos Palmares, Olga Benário, Hélder Câmara, Tereza de Calcutá, Harvey Milk, Hannah Arendt, Dorival Caymmi...
um sem número de filhos e filhas desse mesmo amor,
nossos irmãos e irmãs em prazeres e agonias,
concebidos pelo poder do acaso,
forjados mulheres e homens pelas agruras e sabores da vida.

Essa gente nasceu de mulheres admiráveis e condenadas ao anonimato
e padeceu sob dominadores de todos os tipos.
Crucificados, mortos e sepultados
desceram à mansão dos mortos
mas ressuscitaram e vivem em nós.
E, então, não precisam mais subir nem descer à lugar algum
nem sentar à direita ou à esquerda de nenhum todo poderoso
donde jamais virão a julgar os vivos nem os mortos.

Creio no amor e na justiça
na mobilização social e no bem-querer
na comunhão das pessoas que querem construir o bem
no perdão de erros e deslizes
na ressurreição
na vida efêmera
Amém!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

11. NOVO - Mago virtual

Jogo uma partidinha de cartas virtuais quando tenho um enigma que já está em cólicas de parto pra ser desvendado. (Tenho uns cinco simultâneos, agora). Escolho sempre FreeCell, porque sempre quero respostas afirmativas para os meus dilemas e, segundo as regras que defini para o meu jogo, uma vitória significa "sim"... Às vezes me esqueço e clico no "Paciência Spider" que sempre me fode com um retumbante "não".

Essas fraudezinhas não afetam a seriedade com que me lanço a esses búzios de araque. E, pelo resultado da partida de há pouco, vou passar para a próxima etapa da seleção para professores da Faculdade de Educação da UFG e meu projeto vai ser aceito no doutorado em comunicação da UFMG de uma tacada só - é mole?

Sobre esses concursos, digo pra todo mundo que estou contente de ter conseguido concluir o projeto a tempo de me inscrever, que essa participação é só uma etapa no meu processo até conseguir ser aprovado daqui a alguns anos e blá-blá-blá... (Outra fraudezinha). De verdade estou doido para que dois milagres aconteçam e que eu consiga virar, a um só tempo, professor de "Comunicação, mídia e educação" e aluno do doutorado da terceira melhor universidade do país.Enfim: sinto que terei muitas partidinhas de FreeCell até a virada do mês.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

8. DISTÂNCIA - "Longe é um lugar que não existe"*

Cheiros arrancam a gente pra lugares e tempos remotos, sem licença nem vagareza: é pá pum! Masturbações nos levam a corpos conhecidos ou que nunca o serão. Sabores também são excelentes veículos de teletransporte. Lembranças, nem se fala! Quando me contam que meteram o pé numa tábua de pregos ou a mão num caco de vidro, sinto um instantâneo e tenebroso gelo no saco. Se o relato for uma ficção, eu nem ligo: gelo igual. Tenho sempre um instante de nó na garganta nos episódios de Brothers and Sisters. Declarações de amor entre irmãos, pais e filhos me derretem até em propagandas do dia dos pais da Renner, sem nenhum efeito antídoto da minha empertigada consciência crítica sobre o proselitismo burguês do arcaico modelo cristão de família nuclear, patricarcal e androcêntrica.

Nem tempo, nem lugar, nem fato:
tudo aqui, em mim, agora!

*Título de um livro de Richard Bach

domingo, 2 de agosto de 2009

5. PROFUSÃO - De saberes


4. GOSTO - Meu gosto!

Gosto é um híbrido de cachorro acanhado e cavalo sem cabresto. Alguns abanam o rabo, com olhos melados, enquanto se enroscam em nossas pernas, sem chances de escapatória: hábitos, cheiros, sabores, costumes que, se a gente abandona no almoço, à noite parece que o dia foi inexplicavelmente esquisito. Há gostos, especialmente de comidas, que não suportam indagação: que gosto tem a peta, o sagu e o cuscuz? Pergunta ofensiva, independente do tom e da intencionalidade do intrometido.

Não adianta dizer para um goiano que peta tem sabor de isopor lambrecado em banha de porco; muito menos contar para um gaúcho que sagu é algo como bolinhas de cola caseira feita com fécula de mandioca, em cor e calda bordeau; perigoso mesmo é dizer para um nordestino que cuscuz tem cheiro ótimo e gosto de "palha seca"... O gosto dessas e de muitas outras comidinhas está no inacessível e incompartilhável da memória dos afetos e do bem-querer: gosto de casa de vó; gosto de tempero de mãe; cheiro de infância; sabor de antigamente... E por aí vai.

Na redondeza do inacessível também está o gosto da gente por gente. Quando aquele jeito insuportável em qualquer uma não é suficiente para nos afastar de uma pessoa em particular, atenção! Capaz da gente tá gostando da criatura. E quando a gente tem vontade de fazer (ou quando vê até já fez!!!) coisas antes feias, nojentinhas ou proibidíssimas em nosso manual de etiqueta sexual, aí não tem mais dúvida: estamos entregues ao gosto pela pessoa ou, às vezes, só gosto por safadezas mesmo.

3. PRETO - Entre "diariamente" e batatinha quando nasce

Para elegância garantida: preto!
Feijão de cariocas e fluminenses: preto!
Ford dos primeiros tempos: preto!
Ouro de levantes Gerais: preto!

Gato de encantamentos: preto!
Galo de encruzilhadas: preto!
Fora dentes e olhos, leopardo: preto!
O sim ou não da zebra: preto!

Gil para dona Canô:
O Preto que Caetano gosta.
Síntese de todos os pigmentos,
oco de toda luz.
ébano, negro, retinto, preto!

2. IMPUREZA - "Eu, filho do carbono e do amoníaco"*

Primeiro era um ponto branco, na amídala esquerda... Tenho certeza, porque minhas encrencas de saúde são sempre do lado direito (até as infecções de garganta). Um tantinho de água a mais, mel, frauda no pescoço na hora de dormir (um espetáculo com o meu pijama azul de decote em "V"!!!). Achei que não passarai disso. Ledo engano: o ponto branco se multiplicou por três; o branco evoluiu para dourado; mais dois dias e a voz sumiu, enquanto uma torneira de pus foi aberta mais ou menos na altura do terceiro olho, com canalização direta para as narinas e, se deitado, com desvio para a goela e estômago. Mais um pouco e a febre pontualíssima, de meio-dia para a tarde, fritava o pus que era expulso do nariz, a partir de então, em tamanho e ares de panqueca. Tudo isso antes de começar a tosse, daquelas miúdas, sem catarro e sem trégua. Tosse de cachorro, das que matam de raiva e de sono. Sim, porque você é obrigado a virar a noite sentado na cama, brincando de "estátua". Nesse embalo pensei muito, mas nada consegui escrever sobre impureza.

*Do poema de Augusto dos Anjos.

1. RASGO - A ferrro em brasa

“Aconteceu uma coisa hoje...”, sapecou a moça, quando entreabri a porta de acesso ao prédio onde moro. “O armário despencou... A televisão explodiu... A casa pegou fogo...”: uma saraivada de tragédias salpicou a tela da minha imaginação, como se a parte criativa do meu cérebro tivesse tomado um cutucão de estímulo. A parte vizinha do cérebro, a que cuida de sensatez, fingimentos e polidez se pôs de pé e me fez soltar um “ai meu Deus” em tom de galhofa, como quem não está nem aí.

Sentada de lado, ombros encolhidos, jogando o corpo contra a parede como um bicho acuado, a moça rompeu as comportas: “Queimei-uma-camisa-foi-sem-querer-me-desculpe-isso-nunca-aconteceu-comigo-se-quiser-desconte-do-meu-salário...”. A primeira parte do meu cérebro voltou à cena, “qual terá sido?”, e desfilou meu guarda-roupa, exibindo, como uma criança travessa, um a um, destroços de minhas camisas mais queridas.

“Fica tranqüila... Pensei que tinha sido alguma coisa mais grave... Isso foi um acidente de trabalho”... Simulei um não-me-importar para consolar a moça, cujo corpo, a essa altura, era um Michael Jackson de expressão de constrangimento. Fui saindo a passos lentos pelo corredor e apressei o passo logo que saí das vistas da moça e da mãe da moça, que também trabalha no condomínio e foi quem segurou a filha, exigindo que ela mesma relatasse o acontecido.

Deixei a porta pra fechar depois, joguei a pasta não me lembro onde e fui direto ao cesto onde a moça pensara, inicialmente, omitir o episódio. Foi a bege, de riscas coloridinhas e mangas longas, que eu usava quando queria me exibir com ar de quem está usando uma roupa tirada do armário ao acaso. Na altura do omoplata direito, um rasgo de uns dois centímetros, feito a ferro aquecido um tantinho a mais do que devia, por onde escapou uma revoada de monstros e fantasmas meus, da Lílian e da dona Antônia.